sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Interligados

Por Mariana Hoffmann

Mariana entrevista Vaudelírio

“Ando de um lado para o outro, de trás para frente, de frente para trás
De um lado ou de outro, tanto faz...
Apenas ando, pois nem mesmo sei por qual caminho andarei e nem se algum dia chegarei
Se nem mesmo eu chegar, feliz vou estar
Minha vida não tem certezas, mas qual vida tem ou terá?”

Conheci um jovem de 24 anos chamado Valdelírio. Sentados em um banco da Praça XV ele começou a contar toda a sua vida, por longas horas durante três dias a nossa conversa foi se estendendo e fui me envolvendo com suas histórias. Conheci os seus amigos Daniel, Andréia, Davi, Laurita e Jeferson, e aos poucos fui adentrando em suas vidas, mesmo que por alguns instantes.

Não tinha tempo feio que me fizesse sair dali; os assuntos eram envolventes e a vida daquele jovem e dos seus amigos era simplesmente uma incógnita resolvida, uma incerteza certa, um vazio cheio. O que seria o centro da cidade para nós, lugar de compras, correrias do dia-a-dia para eles é um “lar”, uma casa livre e aberta e ao mesmo tempo acolhedora e protetora. Os bancos que enxergamos como acentos são para eles uma cama, um escritório. Todas essas pessoas que conheci são moradores das ruas de Florianópolis, apesar de muitos virem de outros lugares.

Jeferson, um dos moradores da praça, contou que foi abandonado pela mãe na Praça XV, esperando um sorvete que nunca chegou. Já Daniel conta que faltava alimento para todos da família, então optou em sair para sobrar espaço e comida para os seus irmãos e pais.

Olhares perdidos e ao mesmo tempo desconfiados demonstram a insegurança e o medo deles diante de nós, imaginando se seríamos policiais ou jornalistas mal intencionados. Porém, mostram coragem e força em conviver diariamente com as dificuldades das ruas e mesmo assim conseguem manter o bom humor e seguir em frente. Muitos deles usam habitualmente drogas e vivem uma não lucidez contínua. Sua vida sexual é cercada de liberdade e descompromissos. Muitos deles são portadores de HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis. Unidos como uma família eles protegem uns aos outros e se tratam com muito respeito e carinho. Também têm uma relação muito afetuosa com os animais: um cuida e protege o outro, e todos os cachorros têm nomes e são tratados com carinho e respeito.

Valdelírio me contou sobre o seu passado, a sua infância difícil. Aos oito anos saiu de casa para tentar a vida sozinho nas ruas, para deixar mais comida para os irmãos que passavam necessidade em casa. Contou que já fez de tudo, desde engraxar sapatos até prostituição. E com certo constrangimento me chamou em um canto e sussurrou baixinho, dizendo que já matou uma pessoa. Perguntei sobre essa experiência, e ele como em um ato de desabafo foi descrevendo o assassinato, detalhe por detalhe. Perguntei se sentia remorso e o motivo do assassinato e calmamente respondia que não, porque o Padre que matou mantinha relações sexuais com ele e outras pessoas, e na frente da sociedade era um padre respeitadíssimo.

No outro dia que em que eu me encontrei com o Valdelírio ele me confessou que sentiu remorso sim e não quis me dizer, mas que não pode fazer mais nada, só cumprir a sua pena. Ele comentou também as dificuldades de viver nas ruas, que incluem abrigo em dias de frio intenso, o preconceito das pessoas, a relação da polícia com eles, as possíveis brigas por território ou desavenças.

Além das dificuldades ele comentou também os pontos positivos da vida na rua, como por exemplo, a vida sem rotina, as viagens que pode fazer, as amizades, liberdade, e poder de decidir quando vai trabalhar e com o quê. Valdelírio comentou também sobre um livro que sonha em escrever, um livro sobre os prejuízos que as drogas causam na vida das pessoas. Nesse relato, quer utilizar as suas próprias experiências para alertar as pessoas que pensam ou vivem nessa rotina que já vivenciou.

Franzindo a testa e demonstrando constrangimento, fala que não deveria ter matado o Padre, e que vê muitas vezes a imagem dele nas paredes do quarto antes de dormir. Depois ele deixa escapar uma lágrima e pergunta se a vida dele tem solução, se ele não está condenado ao sofrimento por ter cometido esse erro. Com satisfação e alegria continuamos a conversa. Eu poderia ficar por longos anos conversando e aprendendo tudo que eles têm para nos ensinar, além de vivenciar, mesmo que na imaginação, tudo o que eles nos contam, e ao mesmo tempo distinguir a nossa realidade com a deles, que muitas vezes se chocam. Preocupado com o cheiro, ele pede para eu manter a distância e comenta que não toma banho faz alguns meses, eu disse que não me importava e cheguei mais próxima dele.

No meio da conversa apareceram no “escritório” da praça XV os amigos de Valdelírio. Toda vez que isso acontecia novas aventuras entravam em cena. Na maioria das vezes eu não estava sozinha, mas acompanhada de colegas presenciando aquela situação, aquele momento único, singular e inimaginável. Tudo acontecia inesperadamente, e assim sendo, os amigos de Valdelírio pediram para nós irmos até a delegacia que um dos seus amigos tinha sido preso e precisava telefonar para o seu tio que é advogado. No começo hesitamos e ficamos em silêncio por alguns segundos, até que um dos colegas, chamado Roger, levantou e chamou o grupo para agir e ir até lá. Fomos até a delegacia junto com o morador de rua Daniel.

Prestes a chegar escutamos um assobio, e logo em seguida Daniel assobiou também. Todos do grupo nesse instante se olharam, e apenas com o olhar pudemos entender o significado do assobio deles. Em seguida conversamos com o Jeferson que estava detido na delegacia do Centro, e quando chegamos ele estava ofegante, desconfiado, confuso e sem lucidez, tentando conversar com as pessoas do nosso grupo e o seu amigo Daniel. Falando apressadamente Daniel quase gritava para Jeferson que éramos jornalistas. Assim que Jeferson captou a mensagem do seu amigo começou a falar da polícia e pediu para anotarmos a placa da viatura que o levou, pois os PMs costumavam bater nos moradores de rua, segundo eles. Depois de toda essa confusão, conseguimos o telefone do advogado e passamos para os seus amigos na praça XV.

No penúltimo dia que estive na praça XV chovia muito e nem percebi o frio que fazia. Minha mente estava voltada somente para eles. Isso me fez pensar se estão sempre no centro da cidade, onde moram, e nós passamos também boa parte da nossa vida cruzando com eles, mesmo sem enxergá-los. De alguma forma fizemos parte da vida deles e eles da nossa. Estamos interligados com tudo que existe, mas ao mesmo tempo às vezes parecemos tão desligados.

Pude perceber que são tão parecidos conosco em todos os aspectos, a diferença é que buscam em caminhos diferentes objetivos parecidos com os nossos, como “felicidade, companheirismo, liberdade, alegria e um lar”, como descreve Valdelírio. Caminhos diferentes e ao mesmo tempo parecidos e entrecruzados.

Valdelírio disse que poderia muito bem ter feito uma faculdade, ter tido sucesso no trabalho, e essas coisas “que vocês vivem”, mas optou por ter liberdade, viver beirando a margem da sociedade, em busca de liberdade e conforto emocional em meio ao caos.

Prometi que mandaria para Valdelírio uma cópia das nossas conversas que eu gravei, ele pediu urgência, pois avisou que seria preso na semana seguinte pelo crime do Padre e que estava sendo ameaçado de morte, e se tivesse a fita poderia distribuir para que todos soubessem desse risco e talvez alguém fizesse algo para ajudá-lo. No fim das nossas conversas eu já estava fazendo parte da vida de Valdelírio, e ele da minha, assim como todas as pessoas do mundo fazem parte uma da vida das outras.

Somos todos interligados. Tudo é fruto de uma ligação e essa ligação é a fonte de vida universal. Ele escreveu em um pedaço de papel o seu telefone e me entregou com as mãos trêmulas e suando e com uma voz firme me pediu novamente: “Por favor mande essa fita para esse endereço; isso é importante, tem relação com a minha vida”. A partir daquele momento percebi a confiança mútua que desenvolvemos. Com um olhar de abandono ele acena. De longe vejo-o caminhar cabisbaixo e aparentemente triste.

Nenhum comentário:

Postar um comentário