domingo, 19 de junho de 2011

Florianópolis é uma cidade de pessoas e coisas que passam despercebidas


Observar os anônimos, os personagens, as profissões estranhas, os esquecidos, as coisas que passam despercebidas pela cidade requer um movimento de alma e de corpo. Invisível aos olhos dos viajantes apressados, Florianópolis ganha forma e cor aos olhos dos jornalistas que não se rendem à visão formatada das superfícies urbanas. Inspirados nas reportagens de Gay Talese reunidas em Fama e Anonimato, os alunos da disciplina de Produção em Impressos do curso de Jornalismo da Unisul experimentaram, na Vivência Jornalística proposta pela professora Raquel Wandelli, um mundo incompreendido e esquecido ao mesmo tempo. Encontraram-se em duas noites no Terminal Rodoviário Rita Maria onde a vida e o tempo não possuem a mesma velocidade da cidade pré-construída. Sujaram os sapatos para ouvir as vozes caladas: “Minha mala é meu corpo”, “São várias ideias, culturas e civilizações. É uma obra de arte e você paga o preço que acha que merece”, “É preciso respeitar o mundo dos despercebidos”. Um encontro que permitiu uma experiência coletiva e individual. O resultado desse encontro com vidas de passagem pelo Terminal está neste blog, reunindo textos, fotos, olhares e histórias que Florianópolis esquece.

CORRENDO RISCOS

Um lugar de passagem. Passageiros, caminhantes. Parece uma avalanche de pessoas que andam apressadamente e se encontram com outras no meio do caminho, que estão com tanta ou mais pressa. Ao chegar à sinaleira em frente à faixa de segurança ouvem-se buzinas de motos e carros que alertam as pessoas que estão atravessando a rua durante o sinal vermelho para pedestres. Ou as pessoas estão com muita pressa ou realmente são mal educadas e irresponsáveis.

Ajudo uma senhora que caminha com dificuldades carregando duas enormes bolsas, uma em cada mão. Ofereço-me para levar uma e ainda divido com ela o peso da outra. Pergunto para onde está indo. A resposta vem trêmula e com a respiração ofegante: “Vou até a Rodoviária minha filha”. Não achei que ela fosse tão longe, mas não ia deixá-la carregar tudo sozinha. Pelo caminho percebemos casais de jovens que namoram encostados em alguns pilares ou na entrada do Terminal Integrado, alheios ao movimento eles sentem-se tão à vontade que por alguns momentos até passam dos limites do respeito em lugares públicos.

Eu e a senhora continuamos caminhando e eu entendi porque ela estava andando tão devagar, as bolsas eram muito, muito pesadas. “Vou visitar a minha filha que mora no Paraná, estou com saudades dos meus netinhos.” Uma mulher de pele negra e cabelos brancos que deixa a vontade de ver a família abrandar o seu dia a dia e não se intimida com as dificuldades. “Não posso viajar sempre, minha saúde não é boa, coisas de gente velha. Minha filha trabalha muito para sustentar os dois filhos, o pai deles não ajuda em nada, não quer saber da família, é um bêbado. Eu rezo toda noite pra ela encontrar alguém que seja bom e sei que meus santinhos ainda vão ajudar.” Estou cansada, quase nem posso conversar, aproveito apenas para ouvir. “Você é uma menina boa, é difícil encontrar alguém assim, que ajude a gente, ninguém dá bola para os velhos como eu.” Caminhamos mais um pouco, agora as duas em silêncio, estamos quase chegando à Rodoviária.

Vamos direto para a área de embarque. A senhora se acomoda em uma das cadeiras, eu largo as bolsas no chão e retorcendo os meus dedos que estão bem vermelhos e doendo vou até uma lanchonete, compro duas garrafinhas de água mineral e retorno para perto da senhora. Sento-me ao lado dela, dou-lhe uma das garrafinhas e respiro fundo. Ela me agradece e logo bebe, assim como eu, para aliviar o cansaço. Em seguida, levanto e me despeço. Recebo um abraço carinhoso e muitos votos de felicidade, saúde e um bom namorado. Antes de ir, pergunto o seu nome. Com um sorriso e segurando minhas mãos ela diz “Meu nome é Maria de Lurdes, mas todo mundo me chama de Lurdinha.” Digo meu nome, agradeço a conversa e desejo boa viagem.

Saio da Rodoviária e vou em direção ao Terminal Integrado de Florianópolis. Pessoas correm ou vão tentando cortar caminho andando por onde os ônibus passam. Alguns perdidos entram nas filas e depois verificam se estão no lugar certo. Deficientes visuais caminham por entre aquele alvoroço de pessoas apenas ouvindo o som da muvuca e sendo esbarrados por pessoas que inacreditavelmente não são cegas. Motoristas e cobradores que não estão em serviço reúnem-se sentados nos banquinhos ou em pé em pequenas rodas, ficam rindo, conversando e dobrando o pescoço quando algo lhes chama a atenção. Passageiros procuram moedas nas bolsas e interrompem o avanço da fila com pessoas que já estavam entrando no ônibus.

Alguns estudantes carregam mochilas que parecem mais pesadas do que seu próprio corpo. Crianças andam de mãos dadas com os pais, às vezes choram, às vezes param e não querem mais caminhar. Muitos na ânsia de aliviar a fome, se encostam nos balcões das lanchonetes e comem uma coxinha ou quem sabe um pão de queijo. O banheiro feminino está quase sempre cheio, uma esperando a outra sair para entrar. “Um banheiro de mulheres sem espelho, isso não existe, como vou passar meu batom?”, diz uma jovem de longas tranças e curtas roupas. E continuam as filas para todos os lados, filas de ônibus, filas de pessoas para entrar ou sair do ônibus, filas de placas que indicam os destinos dos ônibus. As filas incrivelmente aumentam e diminuem, rapidamente aparecem e se esvaziam.

Sentada em um banco da plataforma C, Ana Paula Aguiar olhava o movimento a sua volta. Manicure, 24 anos, trabalha em um salão no Centro de Florianópolis. Há dois anos trocou a pequena cidade de Coronel Martins, no oeste catarinense, pela capital do Estado, na tentativa de deixar os dias de trabalho na lavoura para trás, conseguir um emprego e continuar os estudos. Ana Paula aproveita o tempo em que espera seu ônibus chegar para ler uma revista, sonhando em um dia ter um pouco do que vê nas fotos.

Nas filas enquanto uns conversam outros apenas ouvem a conversa alheia, há também os que têm um olhar perdido, concentrados em seus pensamentos. Quando o ônibus encosta na rampa, a reação de todos é olhar o letreiro na esperança de confirmar que é o ônibus que estavam esperando. Os que embarcam primeiro escolhem lugares, os próximos apenas se sentam e os últimos vão em pé. A fila do lado de fora termina momentaneamente, o ônibus segue e em poucos instantes novas filas se formam. Em alguns pontos as filas nem terminam, os que não querem ir em pé já formam uma fila ao lado da que vai embarcar primeiro.

“Na minha cidade eu não tinha muitas chances de ganhar dinheiro, só trabalhava na roça com meus pais”, desabafa Ana Paula. “Não queria casar, ter um monte de filhos e virar dona-de-casa. Quero ter uma vida boa, uma casa enorme... Ah! E também um jardim. Sei que os estudos são importantes e pretendo fazer faculdade, sonho em administrar uma grande empresa, usar aquelas roupas de executivas e principalmente andar de salto alto. Nas revistas vejo muita coisa, muitas fotos, isso me ajuda a ter ainda mais vontade de fazer e conquistar o que eu quero.”

Senhora Maria de Lurdes, motoristas, crianças, alguns passageiros perdidos, outros apressados, Ana Paula, estudantes, cobradores, tantos personagens desfilando no Terminal Integrado e na Rodoviária de Florianópolis. Ambientes com circulação de muitas pessoas onde, às vezes, construímos preconceitos enquanto observamos alguém passar. Lugares que podem possibilitar uma aproximação com pessoas até então desconhecidas, despertar a nossa curiosidade, fazer amizades ou simplesmente bater um papo legal. As pessoas têm diferentes pontos de vista e muitas declarações a dar, mas é somente conversando que corremos o risco de saber o que a outra pessoa tinha para dizer.

__________________________________________________
Cinthia Fraga, 28 anos, natural de Urubici - SC. Aluna da 5ª fase de Jornalismo da UNISUL. Adora escrever, ouvir o barulho do mar, apreciar o frio da Serra e ficar perto da família. Gosta de se divertir, dá valor a pequenos gestos de carinho, acredita no valor de um sorriso e adora fazer amigos.

AMOR FATI

Todo dia centenas de pessoas, cachorros, gatos, ratos e outros animais circulam pela rodoviária Rita Maria. A construção antiga permanece intacta aos olhares entusiasmadamente progressistas de quem pisa pela primeira vez na "Ilha da Magia". Portal de entrada e saída de milhares de turistas, é nesse local de corredores escuros, ora cheios, ora vazios, que história se passam. Cantos guardam segredos entre as escadarias que separam o térreo movimentado e o andar de cima vazio. 

Há quem pense que rodoviária é lugar de onde muitos se vão e poucos ficam. Mas como todo local público, passam por ela viajantes, mas também funcionários e abrigados. Os corredores que rodeiam a construção abrigam maltrapilhos sentados em calçadas sujas pedindo "uma moedinha pra inteirar aqui moça". Logo, todos os outros fazem do corredor uma fila de vendedores onde tudo é válido para chamar a atenção. Olhos amedrontados apressam os passos de quem se sentiu em perigo ou despertam curiosidade nos que param para dar um pouco de atenção requerida. 

Cenas deslumbrantes realçam olhares por toda parte. Em meio ao movimento rápido de malas sendo arrastadas entre o ponto de partida e o ponto de chegada uma cena se destaca. Abandonado, o cachorro marrom, de arca alguma e de lugar nenhum, se fixa sentado no corredor. Olhar carente gira o pescoço pro ponto de partida e, alguns segundos depois, pro ponto de chegada. Nesse exato momento, milhares de pessoas e animais deixam pensamentos e marcas de decisões como a de partir ou chegar.

Traços expressivos compostos pelo olhar vazio caracterizam a moça sentada ao lado da catraca de entrada do banheiro feminino. Uma placa avisa o preço para usar o banheiro: "50 centavos". Para o controle da empresa que cuida da manutenção do lugar, é necessária a figura humana ao lado da catraca. O mau cheiro infesta o banheiro todo fazendo com que a opção entre o gratuito e o pago seja incontestável. 

A mulher ao lado da catraca é Vanderlea. Morena de olhos azuis e vibrantes, trabalha há cerca de dois anos no banheiro privado do terminal Rita Maria. Paranaense, mudou-se para Florianópolis com suas quatro filhas após se libertar de um casamento de 17 anos. "Cheguei sozinha com minhas meninas e logo arranjei um trabalho aqui mesmo”. Vez por outra, ela pensa em abandonar o trabalho por causa do perigo que o turno noturno na rodoviária representa.

Entre os funcionários que se dividem em turnos curtos para cada função, como cuidar da catraca, limpar o banheiro, limpar o chão de todo o terminal, há sempre aquela funcionária que se comporta como líder do grupo. Mandona, decide a hora do intervalo de todos. "Esses dias ela queria que eu limpasse merda dos outros", indigna-se Valéria.

"Não estudei, não sou formada em nada, vou fazer o quê, além de limpar chão?", justifica Vanderlea quando pensa se teria um emprego diferente do qual trabalha. "O que me atrai nisso tudo é que a cada dia conheço alguém diferente". Afirma-se contente em conseguir cuidar de quatro meninas e ainda trabalhar, muitas vezes, em dois turnos para conseguir o dinheiro das contas no fim do mês. 

Vanderlea é uma das coadjuvantes das diversas historias que permeiam todos os dias no ambiente de trabalho da rodoviária. Referindo-se ao namorado como "o morenão da Paulo Tur", explica que mora com ele há quatro meses, mas "não acredito que ele possa se apaixonar por uma mulher que varre o chão". Vanderlea preza pelo segredo de seu namoro: "Ele é formado e tem um bom emprego, é vergonhoso namorar comigo." Mas, não é só isso que sustenta o fato em segredo, ela é apaixonada por outro que trabalha na mesma rodoviária. 

"Estou sempre procurando problema, pareço uma menina de 15 anos", diz, em alusão ao "amor fati" que sente pelo sujeito misterioso. Para Nietzsche, "amor fati" é amar o justo e o injusto, o próprio amor e desamor. Vanderlea se aproxima da força do afeto nietzchiniano quando joga ao destino seu amor pelo misterioso, deixando assim que o tempo resolva seus conflitos da maneira como deve acontecer.

Por Madalena Giostri

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Ponto de ilusões e histórias desconhecidas

Rita Maria resguarda lembranças nas cadeiras de cor laranja por onde passam personagens anônimos

Ele anda todo pomposo. Usa camisa, jaqueta de couro, crachá, calça jeans, meia social e sapato preto. Aparenta meia idade e já leva consigo marcas do tempo e sinais do trabalho diário. Não demonstra o desgaste físico de alguém que tem um trabalho árduo. Mas tem as mãos de quem, muitas vezes, têm de retirar homens ou mulheres do terminal rodoviário. Vilson Adelino Espíndola não gosta de usar a força, mas admite que às vezes é necessário. Em todo espaço público, sempre tem um responsável por cuidar do ambiente, das pessoas que o envolvem, dos funcionários. O fiscal do Deter – Departamento de Transportes e Terminais – prioriza bons resultados. Demonstra confiança em sua fala precisa e dá voltas em sua aliança, símbolo de sua família, com quem precisa se preocupar enquanto trabalha na sua última opção de emprego, no qual esta há 28 anos. Ele precisa zelar, pelo menos em seu horário de trabalho, para que as coisas não percam o rumo no Terminal Rodoviário Rita Maria. Seu turno é o da noite, das 18h às 24h. Ele adverte que a rodoviária pode ser uma bomba relógio.

Uma bomba que pode muito bem explodir nas mãos de Vilson, que tenta sempre ter um bom relacionamento com todas as pessoas que transitam pela rodoviária. Quando avistou um grupo de pessoas estranhas conversando na escadaria, já sabia quem tinha de procurar. A que parecia líder do grupo, falante e esbelta. Cabelos negros, simpática. Ele consegue distinguir quando o grupo parece perigoso ou não, quem é amigo de quem é inimigo. Define isso de acordo com as características físicas das pessoas. O Sr. Espíndola já viu e ouviu muitas histórias no terminal rodoviário. Algumas marcaram seu modo de ver as coisas. Era preciso olhar para ver, acreditar no que estava acontecendo. “Uma cena que me impressionou foi o encontro de dois meninos rompendo o relacionamento amoroso”. E a partir daí começou a compreender que era possível o amor entre dois homens. Aprendeu a lidar com as situações e a aceitar as diferenças. É preciso uma boa dose de tolerância e uma bem menor de moralismo para presenciar dois homens, juízes, se masturbando no banheiro. Ou para tirar das mãos de uma mulher uma sacola de peixe no feriado da páscoa, a senhora que não admitia não poder viajar com o alimento. E, em protesto, rasgou a sacola em cima de sua cabeça, fazendo o sangue do animal cair sob o seu corpo. “Viajou daquele jeito”, recorda o fiscal. Ele só estava cumprindo ordens.

Os olhos do Terminal

São apenas dois vigilantes e um supervisor que cuidam da segurança do terminal. Tem que dar conta das pessoas que vêm pedir dinheiro na rodoviária. Na rua não é proibido pedir dinheiro. Mas no espaço do terminal, é considerado aliciamento ou extorsão. Há os que vão à procura das lojas para assaltar. Há os que simplesmente sentam em algum canto para se drogar. Há também aqueles que fazem da rodoviária seu lar, sentam no banco e dormem. Esses não incomodam ninguém. O que preocupa o fiscal são os que mostram algum tipo de perigo, os marginais que podem por um segundo tirar a vida de alguém em busca de droga.

Para lidar com a situação, Vilson se mostra superior e declara que “aprendeu a viver no mundo deles” e trabalha com o psicológico das pessoas. “O diálogo muitas vezes resolve, o olho no olho”. Ele tem poder para dar voz de prisão a qualquer pessoa dentro da rodoviária. Mas prefere conversar, oferecer um café, comprar um lanche. Ele já presenciou adolescentes, adultos, moradores de rua passarem pelo local, os “filhos da rodoviária”. Alguns conseguem estruturar sua vida, outros morrem. Assistentes sociais passam no Rita Maria levando algumas refeições, mas não é o suficiente. “Deveria ter um controle de pessoas que chegam aqui iludidas com emprego, mas não tem”, sente Vilson. O fiscal também conta que em cada dia da rodoviária é possível encontrar pessoas com perfis diferentes. Na sexta-feira, são os “baladeiros” que passam pelo terminal. No sábado, os homossexuais fazem da rodoviária seu ponto de encontro.

Nem sempre a primeira impressão é a que se deve levar como prioridade.

Ao ouvir um arroto estrondoso dentro da rodoviária, a primeira pessoa a ser considerada o “arrotador” era um senhor que estava cambaleante e tropeçando nas próprias pernas, enquanto esperava o seu ônibus. Alguns até desconfiavam que se tratasse de um morador de rua e não um simples passageiro. Mas, para o espanto de todos, quem estava arrotando era uma menina. E fazia isso por graça. Em pé, de blusa listrada em frente aos seus familiares, ela mexia na barriga e preparava a emissão ruidosa arrombante.

O senhor que estava visivelmente alterado era Newaldo Broeto. Andava de um lado para o outro, até que avistou o nosso grupo de estudantes e começou a se soltar. Conta que perdeu uma passagem e comprou outra. O italiano mostrava sua identidade para lembrarmos do seu sobrenome. O cheiro de cachaça emergia como um perfume barato que gruda no corpo. Começou a destilar sua vida, como se fosse um copo de bebida. A perda da mulher depois de quarenta anos de casamento, foi o motivo alegado para fazer Newaldo começar a beber. Não era um andarilho, adverte, mas um trabalhador que serviu o exército. Diz que é dono de uma propriedade no bairro Ingleses. A boca levemente machucada denunciava efeito do “copo”, da “pinga”, como ele gostava de repetir. E enquanto estava ali queria se mostrar simpático, contando piadas. Pergunto por que não estava levando uma mala e ele retruca: “Não uso mala, minha mala é o meu corpo”.

A terça-feira era chuvosa, gelada e vazia

Duas meninas que pareciam um casal de namoradas tentavam encontrar seu lugar para conversar à vontade. Enquanto algumas pessoas pensavam em se aproximar ou não para conversar, era possível imaginar o que elas estavam procurando. Vilson nos mostrou os esconderijos dos amantes. Um pequeno espaço, no chão de pedras com um portão servia de refúgio para quem queria dormir, descansar ou se entregar aos beijos até ser pego.

Um senhor negro, com seus 51 anos de vida que retirava o lixo na parte interna e externa da rodoviária avistou as duas meninas, desconfiou, expulsou-as do canto escuro e distante da luz do terminal. Ele anda mancando, arrastando um recipiente onde colocava as sacolas de lixo cheias. Simpático, demonstra afeto com os desconhecidos, disposto a contar a sua história. A sair do anonimato que carrega, observado de canto por quem passava. Casado, com filhos e netos gosta de trabalhar na rodoviária. Não teria ele outro emprego, mas sabia que precisava trabalhar no terminal. Parecia não ligar quando se falava de folgas. “Tenho folga uma vez na semana”, conta Sr. Jorge da Silva, que estava cumprindo seu horário. Naquela noite fria, a chuva não demonstrava incômodo ou preguiça. Ele caminhava sozinho e sempre cumprimentava ou conversava com alguém no meio do caminho. Parou até para comprar remédio e quase o esqueceu dentro da farmácia. Se não fosse a atendente a alcançá-lo, teria lembrado só quando começasse a sentir as dores causadas pela falta do bendito remédio. Deve ser o joelho, pensei. Ele diz que já foi jogador de futebol.

Detalhes de um sábado radiante

As pessoas eram diferentes na tarde de sábado, pareciam mais alegres. Quem estava trabalhando parecia estar brilhante como o sol. Duas faxineiras varriam a parte externa e recolhiam o lixo conversando, como se estivessem passeando. Mulheres sempre andam juntas. Seja em qualquer trabalho, gostam de colocar o assunto em dia. Quem chegava de viagem nem se estressava com a demora para alugar um carro. Um casal sentado do lado de fora, olhava o tempo, se acariciava pensando no fim de semana que tinham pela frente. Até a pomba saltitante ia deixando suas penas pretas pelo chão. A pomba da rodoviária era preta. Tinha o pescoço roxo e a pata rosa. Enquanto dava seus pequenos passos, muita coisa acontecia ao seu redor.

O pipoqueiro que aparentava ter 1,60 de altura falava com todas as pessoas que passavam por sua barraca. Se alguém caminhava lentamente e ele sentia que a pessoa estava perdida, já se mostrava prestativo e lhe indicava alguma direção. O paulistano conta que gosta de trabalhar, tem um bom retorno e nunca foi assaltado. Diz que é a “política da boa vizinhança”. Trajando uma camisa pólo verde musgo e uma calça jeans, o homem de poucos dentes se chamava José Roberto Favini. Seus 60 anos o carregam todos os dias, há um ano, para o terminal para trabalhar no período da manhã, das 6h30 às 10h. No outro período, seu irmão e sócio assume seu lugar.

Favini trabalha por opção, mora com a mãe de 82 anos e não liga de almoçar pão e carne. Mandou trazer da padaria um pão e dois tomates, a carne ele traz de casa. Sua barraca chama a atenção para “Pipoca especial”. Mas nem todos sabem que o caráter do senhor de cabelos brancos é o que tem de mais cativante ali. As cores de seu instrumento de trabalho simbolizam seu jeito de ser. O branco, o seu lado calmo, puro, em paz com a vida. O vermelho desperta o amor que ele transmite pelo seu trabalho. E o amarelo, a sua descontração e otimismo. Ele tem três filhos, três netos e também é agricultor, além do seu trabalho na rodoviária. Ele importa e vende com outro irmão que mora na Bahia. A fazenda tem plantio de cacau, pimenta, cravo e guaraná. Pergunto o motivo de trabalhar diariamente na rodoviária, ele dá uma dica: “A melhor moeda do mundo é a que a gente tem na mão”, diz José. Ele que segue o ditado de que “nada se leva dessa vida”, passa uma lição de sabedoria em poucos minutos de conversa.

Favini tem cinco irmãos, dois ficaram em Florianópolis, um em São Paulo e os dois agricultores no nordeste e norte do Brasil. José também dá pipoca a todos que pedem. Lembra de uma senhora que na semana santa não tinha dinheiro e a criança chorava. Ele foi lá e ofereceu uma pipoca. Comovido, o pai da criança na volta deu R$ 20 para o pipoqueiro e saiu sem dar tempo de receber o troco. O Sr. Favini sabia o motivo do dinheiro. Enquanto o pipoqueiro concentrava seus minutos de folga conversando comigo, uma mulher parou ao lado da barraca para pedir informações.

A supermãe

A mulher chamava a atenção pelo conjunto, estava segurando um carrinho de bebê, com uma pequenina, uma manta e algumas sacolas penduradas. Trazia os dois filhos gêmeos, segurando o carrinho de mão, andando com bolsas iguais separadas pelo nome escrito à caneta azul. A família caminha em direção ao banheiro feminino. Eu segui meu instinto e fui atrás.

No banheiro, a supermãe trocava as fraldas da menina de sete meses. Os dois irmãos aproveitavam para encher um copo plástico de água e sabão líquido que estava encima da pia. A bagunça estava feita. “Mãe o Derick ta comendo sabão.” E eu curiosa em saber como ela lidava com três filhos e viajava sozinha. Ela veio encontrar o marido e pai das crianças, que já estava com a mala, o que diminuiu sua bagagem. Direto de Curitiba desembarcaram Eliane, a mãe com 24 anos, Endrious e Derick, os gêmeos e Rebeca, a pequena de sete meses. A mãe vestia uma blusa cinza de lã e boina preta. Os gêmeos usavam bonés. O de Endrious era do hot wheels, um desenho de carrinhos. Erick preferiu o das Casas Bahia, que seu irmão dizia ser o da Tele Sena, porque Erick adora o Silvio Santos. Os dois eram vermelhos. Eles gostam de andar com roupas iguais. Usam óculos. Mas o que os diferencia são os seus gostos. Os irmãos gostam de chocolate, mas Endrious vai no bolo de chocolate e Derick no brigadeiro. Os dois fazem do lanche no terminal uma festa. Enquanto a mãe tem que comer, dar comida à Rebeca, também tem que colocar os pastéis de carne e queijo no prato, senão eles deixam cair no chão. Enquanto isso, a bebê tentava engolir o tênis do irmão. E Derick arriscava se equilibrar de joelhos no mesmo momento em que tomava um suco de laranja. E os gêmeos iam contando suas histórias. Os dois têm janelinhas. Derick tirou um dente com a mão e guardou embaixo do travesseiro. Já seu irmão preferiu que tirassem com alicate, mas também não deixou de fazer um pedido para a fada do dente.

O paladar deles é incomum para algumas crianças. A mãe conta que certa vez foram à churrascaria para fazer um programa diferente e os dois queriam comer salada. Pergunto qual salada vocês comem? Derick respondeu: “quiabo”, e Endrious: “vagem”. Respostas distintas para dois irmãos gêmeos que perambulavam e se divertiam, tornando visível que o espaço público da rodoviária é singular, inconfundível e sedutor. É preciso olhar para ver realidades desconhecidas, relatos comoventes e extraordinários num espaço público que está diante de nós, mas que quase ninguém percebe. Ao lado da ponte histórica da Ilha Mágica.

______________________________________________
Ana Paula Santos, 21 anos. Paranaense morando em Floripa, estudante de Jornalismo, virginiana. Gosta de assessoria de imprensa, mídias sociais, produção e edição de vídeos. Já fez estágio no Ministério Público de Santa Catarina e atualmente trabalha na Dialetto Comunicação.


terça-feira, 7 de junho de 2011

A Gigante Cinza

Histórias e personagens durante um cochilo esquecido na grande e acolhedora Rodoviária Rita Maria, em Florianópolis

Em maio, Florianópolis despede-se do agito encalorado do verão e se veste com temperaturas mais amenas, dando bom dia à cores e luzes inacreditáveis, e cumprimentando o maravilhoso outono ilhéu. Nessa época a capital do Sol e das praias é surpreendida com frequência por nuvens choronas que teimam em acompanhar os pingos de noite que caem no céu. Esse casamento escuro e gelado confunde e me pergunto se é a chuva que lava a alma ou é a noite que lava a cidade?

Quando enfim anoitece, a cidade descansa, e uma estranha personagem ganha vida, com seus muito mais de 16 mil pares de olhos, e mais de 20 mil pares de sapatos. Sapatos estes, conduzidos por mais tantos e tantos pares de pernas, que ora funcionam e ora não. Que quase sempre andam apressadas, mas que também tropeçam embriagadas.

É uma personagem grande, que ocupa mais de 15 mil metros quadrados, e tem mais de 13 mil metros de seu corpo revestido de concreto. Tem cerca de 1400 rodas. Se alimenta, em média, de oito mil pessoas por ano. Mantém sua estrutura com os pés que por ela passam eventualmente. Mas se nutre verdadeiramente dos que permanecem. Tanto faz se por muito ou pouco tempo, o que importa é que permaneçam o suficiente para deixarem algo de si e levarem um pouco na bagagem.

Há quem chame essa personagem de “Terminal Rodoviário Rita Maria”, ou, simplesmente, de “Rodoviária”. A maioria a vê, com olhos de ansiedade, enxergando seus quase 10 mil letreiros luminosos, como sinalizações apressadas de caminhos a serem percorridos. E quando é caminho, a grande despachante de bagagens vivas é também a alegria de uma chegada, ou a tristeza de uma partida. No entanto, há quem se recoste no seio de concreto dessa mãe protetora, e para os que não veem outra saída, a Rodoviária também é casa, também é abrigo.

Dentre os muitos acolhidos, a Rodoviária teve seus próprios filhos. Não filhos gerados do cimento, mas meninos de seus quatro, cinco anos que nela encontraram moradia. Esses meninos, não conhecem outra rotina. (Sobre)vivem à realidade das drogas, do alcoolismo, da prostituição e da exploração sexual. Habitam a enorme suíte comunitária, usando seus banheiros gratuitos, e fazendo de suas cadeiras de plástico algumas não tão confortáveis camas. Alimentam-se de restos e metades que, por falta de tempo ou de apetite, transeuntes apressados rejeitam nas lanchonetes e deixam sob os balcões, sem imaginar que o alimento tenha tal destino.

A gigante cinza e acolhedora esconde em seus cantos paixões que não podem, não querem, ou não conseguem ser vistas fora desses refúgios. Foi passando por um desses cantos que me deparei com o olhar envergonhado de um casal de meninas, e aquele olhar me apresentou ao silêncio. Um silêncio marcado pela minha insensibilidade, rompido apenas, por uma pequena marquinha, que uma delas trazia perto do pulso, e que, apesar de pequena, entrelaçava dois símbolos do sexo feminino, gritando aquela vontade para quem quisesse ouvir, inclusive para mim. Nesse grito, perfurado na pele incansáveis vezes até tatuar, elas também me apresentaram à coragem.

A coragem é uma fiel companheira do fiscal de operações Vilson Adelino Espíndola (60), responsável há 28 anos pela segurança da rodoviária, durante seis dias da semana no período das seis à meia-noite. Apesar de não gostar das situações que seu trabalho lhe impõe, Sr. Vilson diz que aprendeu a conviver, e, inclusive, a entrar no mundo daqueles que por lá transitam. Aprendeu a olhar e buscar a necessidade de cada um e, também, a deduzir as aparências do que oferece e do que não oferece perigo. Convivendo com os casais homossexuais que por lá se refugiam, por exemplo, diz ter compreendido o amor de uma nova forma.

Certa vez, durante sua empreitada, o incansável guardião das noites deu de cara com a Mulher-cachorro. Não se sabe ainda o quanto humana e o quanto animal é a criatura. Conta-se apenas a história de quando ela tentou passar despercebida pela rodoviária, levando um embrulho com peixes para dentro de um ônibus. Sr. Vilson bem que tentou pedir, argumentar, mas a Mulher-cachorro, enfurecida, agarrou instintivamente o pescoço de um homem e, quando Sr. Vilson tentou tomar as rédeas da situação, a criatura deferiu-lhe uma mordida na mão. Ele exibe a cicatriz, e até se diverte lembrando o caso, uma vez que o sufoco passou. A mulher-cachorro nunca mais foi vista. Já a gigante cinza, a quem tive o prazer de conhecer, cochila esquecida, a espera de uma nova visita que relembre suas histórias e seus personagens, e que dê vida a sua enorme estrutura de concreto, nem que seja só por uma noite.
_________________________________________________
Ana Maria Ghizzo, 19 anos, estudante de Jornalismo. Gosto de olhar as pessoas e imaginar como são suas vidas, pensar no que as deixam felizes e no que as fazem sofrer. Amo o mistério e a sensação de que o Mundo todo é maior que o meu mundo. E nesse Mundo todo me deparei com a Gigante cinza.

Luz, câmera...cadê?

Personagens se destacam por passarem despercebidos diariamente no seu ambiente de trabalho

Você já parou para olhar o mundo a sua volta? Parou para olhar o que, ou quem, está escondido nos cantos escuros dos lugares em que você circula? Nosso campo de visão é muito relativo, não depende apenas do seu grau de miopia, astigmatismo e outras anomalias no olho. A miopia social é muito pior e causa danos muito maiores. Essa miopia é instalada no cérebro e filtra o que é ou não importante que nossa visão alcance. Uma espécie de cegueira seletiva.

Essa doença, uma pandemia em nosso planeta, permite e alimenta a exclusão de milhões de brasileiros. Brasileiros, estes, como qualquer um de nós, nascidos sob o mesmo céu e, teoricamente, com os mesmos direitos que qualquer outro tupiniquim. Essa seleção é feita, habitualmente, da seguinte forma: torna-se invisível aquele que não cumprem o padrão de dignidade estipulado socialmente pelos nem tão dignos senhores engravatados.

Nós, os filhos da sociedade burguesa brasileira, tratamos de bloquear as pessoas ao nosso redor por segurar uma vassoura, por estar sentado no chão, ou por ter alguma característica “socialmente inferior a nossa”. Ignoramos a sua existência por soberba, arrogância, ou simplesmente, por medo.

Existem casos de esquecidos em todos os lugares, em Florianópolis não é diferente. Em uma visita ao Terminal Rodoviário Rita Maria na capital catarinense, pude entrar em contato com algumas dessas pessoas que, para os olhos de alguns passam despercebidas como parte da estrutura, ou da decoração da rodoviária.

Um caso peculiar é o da servente, Marilete Simão Pereira Lima, 46 anos. Ela faz, junto com outras colegas, a faxina da rodoviária. É uma das responsáveis por manter aquele espaço mais que limpo, habitável. Além de ser uma senhora muito solícita e envergonhada, dona Marilete é também muito religiosa e impressionável. Contou um típico “causo” de assombração, desses que na ilha tem aos montes, no entanto tão impressionante quanto qualquer outro. Segundo ela, uma noite chuvosa de sexta-feira santa passava pano no piso da rodoviária tranquilamente com mais uma colega. Ao se virar percebeu que havia marcas de passos molhados pelo chão recém limpo, ninguém havia cruzado aquele caminho no momento. Com muito medo, a evangélica dona Marilete diz que foi a primeira vez que viu algo do tipo. Outros colegas já haviam dito que volta e meia o espírito de Rita Maria volta pra dar um passeio pela rodoviária.

O senhor Carlos Alberto Pereira de 54 anos talvez, seja o funcionário mais improvável de se manter uma conversa. Não que ele não seja boa pessoa, mas é pela função que exerce. É o recepcionista do estacionamento da rodoviária. Está envolto por uma pequena cabine com janelas quase totalmente fechadas e grades a sua volta. Seu Carlos é praticamente parte da estrutura da rodoviária, como as paredes, as vigas, os bancos. Sem ele, muita coisa não funciona, mas mesmo assim, vive lá, solitário cumprindo sua função. Sua única companhia nas horas de trabalho é uma televisão muito pequena, com imagem em preto e branco. Seu Carlos conta que não tem preferência por canal nenhum não, mas gosta muito de assistir o jornal da TV Bandeirantes à noite. Sintoniza na Globo quando começam “as chatices de crente”, como ele chama os programas evangélicos. Carismático e bom de conversa, disse que já trabalhou 22 anos numa loja de música. Embora não toque nenhum instrumento, aprendeu muito lá dentro. Dentre idas e vindas está no nono ano de serviços prestados na rodoviária. Considera sua função muito tranquila. Mas embora nunca tenha se estressado com ninguém, já presenciou cenas em que os fiscais da rodoviária foram ameaçados, agredidos, ou tiveram de usar da força pra impedir que alguém atrapalhasse o bom funcionamento do local. Em alguns casos houve necessidade de acionar a polícia, “mas isso é mais no verão, que tem mais movimento e mais gente de fora”.

O terceiro e último personagem é o talentoso Marcelo Bracarense de 35 anos. Artista de rua, ele é natural de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo.
Marcelo tem uma filha de 11 anos, a quem vê muito pouco, pois mora com sua ex-esposa e viaja muito vendendo a sua arte para sobreviver. Os desenhos do paulista viajante são muito bons e muito diferentes, são mulheres que fazem alusão aos seis continentes do nosso planeta. Ele diz que em Florianópolis seu trabalho é muito pouco valorizado, já em Garopaba, conseguiu vender bastante. Raramente dorme na rua. Na maioria das vezes consegue pagar uma diária de hotel para se abrigar e assim vai vivendo, viajando e vendendo sua arte a troco de sobrevivência. Marcelo contou que quando jovem participava ativamente do movimento estudantil na sua cidade. Mostrou conhecimento do assunto ao fazer críticas consistentes ao sistema burguês, embora se perdesse, de vez em quando, na linha de raciocínio. Na concepção dele “vivemos em uma sociedade que cativa e cultiva que as pessoas sejam burras” e “o pobre não cresce porque quer ter a vida do rico”. Em 2000, foi escolhido como um dos únicos estudantes brasileiros a participar de um congresso latino-americano de estudantes com entidades de vários países.

Personagens com histórias incríveis que batalham para sobreviver sob as sombras criadas pelos olhos de quem não quer ver, de quem não gosta de ver o que não pertence a sua realidade (ou acha que não). Tanto dona Marilete, como seu Carlos e o jovem Marcelo trazem consigo experiências e vivências que só parando pra conversar por alguns minutos é que podemos perceber. São suas lembranças, esperança, desejos que os mantém em pé e fazem com que cada dia tenham vontade de trabalhar, fazer seu “ganha-pão” e continuar ali, invisíveis, mas vivos.
_________________________________________________
Carlos Henrique Pianta da Silva natural de Florianópolis (SC), 23 anos, é graduando o quinto período da faculdade de Jornalismo na Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) e no primeiro período de História na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pertence à gestão 2011 VIRAMUNDO do DCE da Unisul. Fez parte do conselho editorial do portal de notícias latinoamericano http://desacato.info/. Participou do XXX Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação (Enecom). Em 2009 fez parte da gestão da Regional Sul da Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação (Enecos). Participou do V Congresso Estadual dos Jornalistas de Santa Catarina, como representante estudantil. Em 2010, fez à cobertura das eleições para o site: http://www.unisul.br/unisulhoje. Trabalhou em 2009 na comunicação do filme De Um Golpe, Honduras!

A tristeza de um sorriso e o cansaço de uma chegada

A Rodoviária é cenário de despedidas e reencontros, mas principalmente, de lugares e situações inusitadas

Os senhores com bigode, os jovens rockeiros, casais apaixonados, mãe e filha cheias de sacolas não percebem os esconderijos de amores, o pequeno lugar embaixo da escada onde dorme no frio um velhinho e o segurança da Rodoviária. No máximo, param para comprar um café, ou um salgadinho. Mas a maioria anda despreocupada, olhando vitrines e esperando o ônibus, olhando fixamente para o relógio no teto que indica 21 horas e 48 minutos.

Mas há um garoto, que segura uma mala e observa tudo. Como se estivesse reconhecendo o território por onde passa. Meio tímido ele analisa a movimentação que um grupo de estudantes faz. Ele olha para um lado, olha para o outro, tenta disfarçar, mas seus olhos não desgrudam dos universitários. Queria ele ter a chance de poder estudar e ter uma profissão no futuro.

Desde que nasceu o adolescente, de 16 anos, viveu em más condições, passando fome e frio no Morro da Caixa. A desilusão pela vida o fez cair nas drogas, um caminho quase sempre sem volta. E hoje é morador de rua, ele até diria que mora na Rodoviária, mas nem sempre é possível conseguir um lugar quentinho para se dormir, pois os seguranças não deixam com que certas pessoas entrem, sentem nas cadeiras sujas e alaranjadas ou peçam esmola para algum turista. Mas que pessoas são essas?

Pessoas como o jovem Wellington, que desacreditaram da vida. Adultos e adolescentes com condições de vida péssimas, vivendo de drogas e de trocados dos outros. Eles são enxotados como cães pelas pessoas que vigiam o local. Porém, esta não é a vontade destes seguranças. Wilson é segurança da Rodoviária há 20 anos e afirma que não gosta de trabalhar ali, é triste ter que tratar um ser humano como lixo, ou pior que isso.

Com o sorriso triste Wellington se despede, talvez pensando na dificuldade de um dia ingressar em uma universidade. Ao mesmo tempo, por ele passam mãe e filha, apressadas e com aparência cansada. Desembarcando de São Paulo, as mulheres com muitas sacolas afirmam ter vindo do bairro do Brás, local onde fazem compras. Donas de uma loja no camelódromo central viajam uma vez a cada duas semanas, com o intuito de repor o estoque. Ser sacoleira dá dinheiro? “Dá sim, mas também dá muito cansaço e poucas horas de folga”, afirma Roberta, filha de Marcela.

Com pressa elas se despedem esperando a cama quentinha em casa na noite chuvosa. Depois de ouvir sobre “camas quentinhas” olhei para o lado e vi na parte de fora da Rodoviária, várias pessoas dormindo em caixas de papelão e em cobertores finos, velhos, rasgados e com aparência muito suja.

Depois de conversar com estes personagens conversei com Wilson juntamente com a minha turma e ouvi histórias inimagináveis. Quem diria que o terminal é freqüentado por públicos diversos em diferentes dias da semana. Sexta-feira, por exemplo, o maior número de pessoas é homossexual. Com esta deixa, o segurança nos conta sobre o dia que entendeu o amor entre dois homens, do mesmo sexo. Ele os viu fazendo sexo em um lugar aparentemente escondido dos olhos humanos, mas não das câmeras. Então percebeu o amor e a cumplicidade que ali existia. “Trabalhar ali é crescer como pessoa, é saber lidar com situação familiares de uma maneira muito mais fácil, pois você vê de tudo”, afirma Wilson.

Quando estava deixando a vivência em grupo e indo embora para casa, pensei no quanto é estranho o fato de do lado do cartão postal da cidade ter pessoas, lugares e histórias ricas em detalhes que a própria capital menospreza e que os turistas não vêem.
_________________________________________________
Quem sou eu
Nome: Juliane Barcellos Teixeira
Idade: 19 anos
Curso/fase: Jornalismo/ 5ª fase
Ocupação: Gerente de Marketing
O que aprendi com a vivência: O estudo em grupo tornou-se um enorme aprendizado e percebi que todos somos iguais, independente das condições que nascemos. As situações por nós vividas muitas vezes não se comparam com a dos outros e mesmo assim criamos diversos empecilhos e dificuldades para nós mesmos.

“Você gosta do meu trabalho?”

Com brincos em uma tela de armação de bambu, homem busca seu reconhecimento

De cá para lá, de lá para cá, passos apressados ecoam as idas e vindas pela passarela do Terminal Rita Maria. De longe se ouve uma voz: “Por favor, posso te fazer uma pergunta?” O silêncio é a única resposta, quebrado apenas pelos passos precisos, que toc-toqueam rápidos e concisos, daqueles sujeitos que passam sem sequer olhar para os lados ou para baixo. Por alguns minutos observei a cena, percebi repetidas vezes as mesmas palavras seguidas de um silêncio quase absoluto.

Aproximei-me devagar esperançosa de que ele me fizesse a mesma pergunta, quando me olhou, baixou a cabeça e organizou os brincos e pulseiras na tela preta com suporte de bambu. Nesse momento, parei fitei-o e perguntei: “Quanto custa?” olhou-me nos olhos, com um brilho que lembrou uma criança quando busca o presente do Papai Noel ao pé da árvore de Natal. Ainda me fitando interessado e confuso perguntou: “Você gosta do meu trabalho?” Calmamente abaixei-me e disse: “São lindas peças”.

Pareceu-me feliz e acolhedor, porém, quando afirmei ser estudante de jornalismo e que estava fazendo um trabalho com os perfis dos sujeitos esquecidos da cidade de Florianópolis, pareceu angustiado e na defensiva, suas palavras eram duras e chocantes: “Você vai publicar em seu jornal que eu sou mais uma dessas pessoas chatas que ficam vendendo e incomodando as pessoas na rodoviária? Perguntando aquilo que elas não querem falar repetidas vezes? Porque é isso que as pessoas fazem.” Neste momento fiquei paralisada, como se tivesse levado uma picada de aranha, da qual o veneno causava paralisia geral. Estagnada pelo poder das palavras daquele homem, tentei buscar dentro de mim algo que pudesses quebrar aquele gelo, foi quando lhe fiz uma afirmação: “Você não me disse quanto custa”. Olhou-a novamente com aquele mesmo brilho no olhar de quando as crianças fazem Uau! E disse: “Você gosta do meu trabalho?”
Sim! Isso mesmo, André Marcos 38, sofre de perda de memória recente. É conhecido também por Dedé dos brincos pelos seus amigos, Chiquinho dos Cachorros, 41 e o Irmão Simeão, 44. “Dedé é um ótimo homem, não dá trabalho, fica ali com seus brincos tentando encontrar alguém que se interesse pelo seu trabalho”, diz Chiquinho.

Amigos, é sempre bom ter amigos por perto para nos proteger e nos lembrar quem somos, como afirmou o Simeão: “Precisamos sempre lembrá-lo de quem somos e por que estamos com ele todos os dias, afinal temos que proteger nosso irmão. Ele não se lembra das pessoas e as pessoas nem sabem que ele está aqui”.

Atualmente, os indivíduos estão acostumados a ter tudo instantaneamente e esquecem que o aprendizado é longo e que não dá para ter uma vida em partes. Como não se pode ter apenas uma parte de uma obra de arte, assim como uma nota só não faz uma canção. “As pessoas passam rapidamente por aqui como se quisessem saber e aprender sobre a vida em um segundo, isso é totalmente impossível, porque o aprendizado da vida é necessariamente lento; às vezes doce às vezes sofrível”, declara Chiquinho. A vida é um composto de histórias obtidas ao longo de uma vivência. Por isso, os amigos são ferramentas importantes na vida das pessoas para que nós nunca nos esqueçamos de quem somos.

Dedé se lembra apenas de que sua família dizia ser chato ter que repetir várias vezes a mesma coisa só por que ele se esquecia de tudo, o tempo todo. Por isso resolveu não dar mais trabalho. Aos 25 anos encontrou na rua o acalanto que lhe faltava em casa, seus amigos Chiquinho dos cachorros, Irmão Simeão e uma bela cachorrinha de nome Moça Bonitcha são os responsáveis por fazê-lo se sentir feliz e reconhecido.

Dedé se satisfaz com os seus brincos, passa horas e horas criando e recriando. “Gostamos do seu trabalho”, afirmam Chiquinho e Simeão para Dedé entender que eles são confiáveis, já que ele sofre com a perda de memória e, por isso, podem dormir sossegados. Nesse momento, André pega os seus brincos e sai feliz com os seus amigos, dirigindo-se para o monumento em frente ao terminal rodoviário. Ali se aconchegam.

Qual era a pergunta que Dedé tanto queria fazer às pessoas que passavam apressadas pelo Terminal Rita Maria, sem tempo para poder aprender com a vida? Durante toda a volta para casa fiquei pensando e decidi que deveria voltar outro dia na rodoviária sem pressa para compreender o que Dedé tinha a ensinar. Alguém que para muitos parecia não saber nada sobre o viver.

Sábado de manhã, quase meio dia, cheguei ao terminal e de longe o avistei. Aproximei-me devagar e sem receio de ser questionada, ouvi uma voz: “Por favor, posso te fazer uma pergunta?” E com um imenso sorriso lhe disse sim. Olhou-me e disse: “Você gosta do meu trabalho?” Nesse momento compreendi a essência daquele cidadão. As pessoas precisam ser reconhecidas e se auto-afirmarem por aquilo que fazem. O que ele queria era saber se alguém se interessava pelo seu trabalho.

O Ser humano está sempre preocupado em ser reconhecido por aquilo que faz de melhor. Assim como Jorge da Silva, faxineiro da Rodoviária, quer ser reconhecido pelo que faz. Uns trabalham na comunicação, outros com a saúde, ou são empreendedores, mas querem sempre ser vistos como os melhores. Este também é o sentimento do José Roberto quer ser reconhecido por fazer a melhor pipoca do terminal. Porém, algumas vezes estamos apressados e ocupados demais para perceber que o outro não é invisível.
_________________________________________________
Kelli Pierini – 23 anos
Estudante de Jornalismo
Trabalho em uma empresa de sistemas de informação, sou apaixonada pela vida e acredito que a vida não é monocromática, não tem cor de nada ou cor de tudo, mas é o circulo cromático com seus inversos e complementares. Gosto de me colocar no lugar das pessoas e saber como elas se sentem e o que é possível fazer para fazê-las se sentirem melhores e importantes para a sociedade.

Florianópolis: cidade obscura

“Fama & Anonimato,(...) representa minha visão juvenil de Nova York, dinamizada por uma mistura de admiração e espanto, e me lembra também de quão destrutiva uma cidade pode se tornar, quando ela promete muito mais do que pode cumprir, e de como estava certo E. B. White quando escreveu, muitos anos atrás: ´Ninguém deve vir morar em Nova York a menos que esteja disposto a ter muita sorte’”.

Esse depoimento de Gay Talese me fez parar para pensar em que “Ilha da Magia” vivo? Onde está a magia? E principalmente quem enxergamos e quem escondemos nessa Ilha? Nem foi necessário ir tão longe, bastou andar pelo centro ou dar uma olhada em volta do Terminal Rodoviário Rita Maria. Olhava para todos nas ruas, transeuntes ou comerciantes, artistas das ruas, e imaginava: “Quantas histórias essas pessoas devem ter para contar”. Comecei então a pensar na vida das pessoas anônimas, seus dramas, suas ilusões, seus problemas. Em coisas que os jornais não costumam contar, por falta de sensibilidade ou por não ter coragem de narrar, de fazer das pequenas coisas da vida uma história, uma matéria jornalística.

Em uma dessas minhas andanças não resisti em apenas observar. Então ao passar pela Felipe Schmidt, esquina com a Trajano, resolvi falar com um homem que quase sempre me vendia pipoca. Seu José, um sujeito tímido, que sempre me passava um ar de homem meio grosso, austero e desconfiado me surpreendeu quando desembestou a falar. Ele me disse: “eu falo com a senhora sim, mas vai sair no jornal?”. Disse que não. Então ele falou: “Não tem importância, pode me perguntar que eu respondo. Tem gente que nem bom dia me dá. Você pelo menos parou para conversar comigo”. José de Souza era um pouco espaçoso em todos os sentidos, pois além de meio barrigudo era também meio repórter. Volta e meia me falava: “Anotou isso aí? Entendeu o que quis dizer? Escutou isso? Interessante, né?”.

Casado, com dois filhos, aos 60 anos e aposentado, resolveu vender pipoca nas ruas de Florianópolis, não porque sua aposentadoria não conseguia prover as contas de casa, mas porque seu filho mais velho de 18 anos se formará no ensino médio no final deste ano e ele pretende pagar sua universidade. “Meu filho é muito inteligente, quer ser advogado, então se ele não passar no vestibular pagarei uma faculdade particular mesmo. Já estou juntando dinheiro para isso. O dinheiro que consigo com a venda não é aquelas coisas, mas ajuda e ajudará muito. E é um dinheiro que usarei só para a faculdade do meu filho. Continuarei a vender pipoca até minha filha mais nova que agora tem treze anos, se formar também”.

José é professor aposentado e formado em geografia. E não se arrepende de ter cursado uma universidade e acabar vendendo pipoca. “Não me arrependo nem um pouco de ter cursado uma faculdade e depois de aposentado vim para as ruas vender pipoca. Quando entrei tinha noção que professor não ganhava tão bem, mas era minha paixão e não tenho do que reclamar. Consegui comprar minha casa, meu carro, e dar um pouco de conforto a meus filhos. E se meu salário não foi o bastante para ter condições de pagar uma faculdade para eles, por amor voltei a trabalhar nas ruas. E sei que essa minha condição serve como orgulho para ele e não como pretexto para que ele não queira ingressar em um curso universitário”.

“A rodoviária é uma bomba-relógio”. Essa frase é de Vilson, chefe dos seguranças da Rodoviária de Florianópolis. Traduz bem o que o Terminal rodoviário e seus arredores representam. Uma conversa que tinha tudo para ser desinteressante inicia-se e me faz ter vontade de cada vez ouvir e escrever para e sobre os que não têm voz. Quem diria que aquele homem de 60 anos, calvo, com rugas aparentes e jaqueta de couro, morador da cidade de Palhoça iria ter tanto a dizer sobre Florianópolis com tanta compreensão e desembaraço?

Há os que trabalham, os que passam por lá, e os que não têm para onde ir. Esse ancoradouro de ônibus tem muito para nos contar. Algo do passado e do presente. O terminal rodoviário há anos atrás foi abrigo de moradores de rua, prostitutas, esmoleiros e usuários de drogas. Hoje se pode dizer que é um lugar seguro para os que transitam por lá. Mas a sujeira foi jogada para debaixo do tapete. Ao redor do terminal ainda transitam esmoleiros ou pessoas que moram na rua e tentam sobreviver com um trabalho que encontraram para ganhar dinheiro e passar o tempo.

Na Francisco Tolentino, perto da passarela que se inicia no Rita Maria, travestis posam como vitrines humanas. E logo mais acima, na rua Conselheiro Mafra ficam as garotas de programas. Estranho é que ninguém percebe e ninguém vê. É só cuidar dos jardins e passar uma camada de asfalto que está tudo bem, tudo bonito. As belas praias dão um toque final para completar o êxtase total dos visitantes da Ilha da Magia. “Mas não posso me equivocar, quando o terminal Cidade de Florianópolis passou a ser morada de mendigos, a Prefeitura de Florianópolis tomou uma atitude, com o auxílio da Polícia Civil que não tinha efetivo para capturar bandidos, os moradores de rua foram ´varridos´ do Terminal. Ou seja, sujeitos resumidos à sujeira!”.

Tudo isso me faz lembrar um garoto que conheci na infância e que hoje se intitula mulher. Tudo aconteceu gradativamente. Sua aparência, sua aceitação, seus relacionamentos foram aos poucos sendo descobertos por ele e pelos outros. Primeiro Carlos Alexandre, era assim que se chamava, agora Amanda, tomou a coragem de deixar seus cabelos crescerem, pintou seus cabelos, tirou as sobrancelhas e cutículas, coloriu suas unhas e encarou os colegas que o acompanharam desde a infância. Mesmo assim foi difícil, mas por serem amigos, aceitaram. Ao retroceder um pouco na história de Carlos Alexandre ou Amanda pude perceber que se trata de um sujeito esquecido. Quem é que vai se preocupar com as desilusões amorosas ou com o cotidiano de um travesti? Um homem que se enxerga mulher age como mulher, aspira casar e ter filhos, e como qualquer outra pessoa tem problemas, às vezes até mais grave.

Certa vez, Amanda me contou que foi agredida na avenida Mauro Ramos quando estava na esquina de madrugada trabalhando como garota de programa. No entanto, ela não deixou a profissão porque gosta dessa vida banhada em sexo, drogas e luxúria. “Eu gosto de fazer programa. Mesmo que não ganhasse dinheiro, faria mesmo assim. Gosto de dar. Todos os homens que atendi conversam comigo, dizem que sou linda e delicada. Fui agredida poucas vezes, mas não por clientes, são pessoas recalcadas que têm vontade de me pegar, mas não dar o braço a torcer”.

Como é possível não consegui enxergar o que se passa em nosso nariz? Seu Vilson, o chefe de segurança da Rodoviária foi capaz de ver em meio a toda a marginalidade que cerca aquela estrutura maciça de idas e vindas, de encontros e desencontros, as perturbações que podem existir em pessoas que não são vistas como pessoas, ou sequer são vistas. “Tenho consciência que os mendigos precisam mais que um prato de sopa, mais que um sanduíche. Eles precisam de ajuda. Eu vi a evolução de alcoólatras, prostitutas e moradores de rua. E o mais curioso, foi na Rodoviária que a primeira vez tive a oportunidade de compreender o que é o amor entre dois homens”.

Saber valorizar a vida (natureza, bichos e homens), os sentimentos e as normalidades e estranhezas da vida. Minha viagem pela rodoviária teve o sentido de contar a história dos anônimos e do sistema de invisibilidade que faz de homens e mulheres seres esquecidos e marginalizados. E a partir da sensibilização dos seres desenvolver a capacidade de entender e retratar histórias de uma terra de magia, encantos e bruxarias por completo. Ou seja, falar dos perfumes das flores, mas não se esquecer da escuridão e do cheiro fétido dos bueiros.
_______________________________________________
Láira Calixto nasceu em Minas Gerais, tem 24 anos, é professora primária formada, graduanda da 5º fase de Jornalismo da UNISUL. Amante da poesia e do amor. Denomina-se uma mulher apaixonada. Pois segundo ela o amor não nasce dentro do seu peito, pelo contrário ela nunca morre.

As cinco sensações de Rita

Conhecendo por onde as histórias passam

I

Dá-se um passo.
Dentro do terminal.
Terminal rodoviário.
Pessoas andam.
Para todos os lados.
Vindos de todos os lados.
É o Terminal Rodoviário de Florianópolis.
Rita Maria é o seu nome.
Na avenida Paulo Fontes, no Centro de Florianópolis.
O Terminal ganhou este nome em homenagem a uma senhora.
Moradora das imediações.
Dizem que a velha senhora recebia anteriormente os visitantes que ali chegavam.
Por isso o nome.
A referência.
Olha-se ao redor.
Olha-se o espaço.
O espaço da edificação é constituído por um grande elemento horizontal.
Quase monótono.
Tipo galpão.
Alguns mezaninos com estrutura independente ao longo de seu eu.
Para quebrar a horizontalidade do conjunto dispõem-se oito torres de serviço. Elas avançam para além da cobertura.
Antes de entrar, o piso é de pedra.
É a calçada.
Além da calçada, se encontra o piso emborrachado da rodoviária.
Ao atravessar a primeira porta da rodoviária, percebe-se com o olho a mudança de piso.
O piso é emborrachado.
Segue-se em frente.
Área de desembarque.
Da porta de entrada até o desembarque contam-se sessenta metros.
Ali está, erguida de maneira discreta, mas convicta, a sala de segurança.
Feita de plástico.
Também vidro.
Dentro, um homem observa tudo.
Impassível.
Rádio preso à cintura.
Jaqueta azul escura.
Rosto massacrado pelo tempo.
Pela sinceridade do tempo.
Mirando à direita da sala de segurança, pode-se ver parte do caminho.
O caminho percorrido por aqueles que chegam.
Chegam de ônibus.
E por aqueles que se vão.
Também nos ônibus.
Seguindo este caminhar ao longo da rodoviária, percorre-se 200 metros de extensão.
A esquerda desta rota, lojas.
Duas lanchonetes.
Ali próximo dois pipoqueiros.
Roupas brancas.
Carrinhos coloridos.
Listrados.
Vermelho.
Branco.
Alternados.
À direita do pipoqueiro, a escada que leva ao piso superior.
Mais à frente todos os balcões e guichês de empresas rodoviárias.
Caminhando por esta extensão esbarra-se em colunas maciças de concretos.
Elas ficam enfileiradas no centro do caminho percorrido.
As colunas de sustentação na passagem dos que viajam.
Seguindo para além dos pipoqueiros, veem-se os balcões de compra de passagens.
Depois, os portões de embarque.
Portão A.
Portão B.
Portão C.
Portão D.
D.
Do dia a dia de pessoas que fazem do terminal, seu caminho.
Sua passagem.

II

Parado em meio ao Rita Maria, cheira-se.
Bombardeio de odores.
Sabores imaginários.
Olfato.
O olfato é o instrumento do corpo humano para criar associações.
Trazer à tona as memórias mais fortes.
As sensações mais doces.
Parado em meio ao terminal, cheira-se.
Almíscar fecal.
Mistura de cimento.
Pedra chanfrada.
Borracha suada.
Suor de pessoas.
Odor natural de mais de uma centena de caminhantes.
Visitantes.
Diários.
Os cheiros são diários.
Mas, se percorrer o amplo salão central.
Ziguezaguear as colunas.
Cheira-se.
Vinho.
Conhaque.
Tabaco.
Cigarro.
Revista nova no plástico.
Bala de morango.
Trazido pela brisa noturna das portas que se abrem, pipoca.
Odor irresistível.
Na verdade, milho e sal.
Milho.
Muito sal.
O pipoqueiro, moço, muito simpático para as jovens senhoritas de nariz fino e cabelos encaracolados, preenche de sal, seu produto.
“O segredo está no sal!”
É o que ele diz.
Enquanto fala, faz seu rito frequente.
Pega a pequena pá de metal.
Mergulha no milho quente e estourado.
E no sal, logicamente.
Despeja no pacote listrado de papel.
Serve ao cliente.
E conversa.
Ou fala.
Depende de quem ouve.
O pipoqueiro, que vaporiza nas narinas um repelente contra mal cheiro, nem sempre foi pipoqueiro.
Antes, foi sonhador.
Sonhou com um mundo mágico.
De cheiros mágicos.
Mas a magia morreu quando algo fantástico nasceu.
Seu filho.
O fez acordar para o deserto do real.
O Terminal foi sua solução.
A pipoca, que é o sustento para aqueles que existem na passagem, tornou-se o sustento daquele que a distribui.
O segredo é o sal.
Salgada.
Sua vida.

III

Come a pipoca.
Muito salgada.
Mas a pipoca, não é o único sabor.
Tem a sopa.
Na loja de sopas.
Mini-restaurante.
Corrijo.
Ela é molhadinha.
Água temperada.
Pequenos grãos.
Bem quentinha.
Mas a sopa é só sombra.
Ela se foi.
A sopa.
Não existe mais nada de sopa.
É à sombra de tempos diferentes do Terminal.
Em mais de 20 anos, Rita Maria mudou.
Como tudo que é vivo.
Mudou.
Como as pessoas que transitam ali.
Mas o sabor dali é mais do que sopa ou pipoca.
É sabor humano.
De cada história.
De cada pessoa que transitou por aquele espaço através de tanto tempo.

IV

As pessoas falam.
Muito.
Conversas íntimas entre jovens casais e namorados.
Diálogos entre velhos senhores.
Um violão tocado por um homem sentado ao chão.
No Terminal Rodoviário ouve-se de tudo.
Som.
Sons.
Música improvisada.
Os seguranças que falam pelos rádios.
Motores que roncam.
Rosnam.
Os passos furiosos dos viajantes.
Cada conversa.
Barulho de motor.
Ruído de rádio.
Barulho de descarga.
Funcionam como uma fala.
Grito.
Que o terminal oferece à cidade.
Grito sincero de vida.
De ouça-me.
Ouça meus problemas.
Minhas dores.
Mas a cidade não ouve.
Como os homens e mulheres que ali passam.
Ou que ali vivem.
Ninguém os ouve.
A cidade não os ouve.
O grito se torna lágrima.
A lágrima se torna a batida de um coração.
Coração mal cuidado.

V

O coração mal cuidado também ama.
Ama como todos os homens e mulheres.
Amam de corpo.
De alma.
De DETER.
DETER é a equipe designada para fazer a segurança de Rita Maria.
DETER é uma palavra sem sentido para quem se depara com ela.
Significa pessoas de jaquetas azuis escuras com um rádio preso à cintura.
Significa pessoas de rosto cansado com o dever de resguardar a ordem do local.
A palavra que oferece uma identidade aos que, aparentemente, não tem identidade.
E, na sala de segurança, erguida de maneira discreta, mas convicta um homem observa a tudo.
Impassível.
Rádio preso à cintura.
Jaqueta azul escura.
Rosto massacrado pelo tempo.
Pela sinceridade do tempo.
Chefe do turno da noite.
Wilson.
É o seu nome.
Não confundir com a bola.
Wilson.
Lê-se “Vilsom”
Ele, senhor de muita idade no rosto.
Tornou-se membro do DETER por amor.
Amor à família.
Ao filho recém-nascido.
Também por necessidade.
De sustento.
Como o pipoqueiro.
“Vilsom” ou “ Wilson” trabalha no Terminal por quase 20 anos.
Tocou muita coisa.
Corpos em desavenças corporais com senhoras de meia idade.
Tocou almas, com os esquecidos por todos, mas lembrado por ele.
Histórias de vidas.
De amores.
Amores que, como a sopa que se foi, o sal amargo da pipoca, se transforma ou transforma aqueles em que toca.
O amor instintivo que brota dos lugares escondidos.
Os cantos sombrios cercados por grades baixas.
Lugares fora da visão.
Que também brota dos cantos iluminados.
Seguros.
Dos banheiros.
E nestes banheiros nasce a revolta do amor.
Ou o amor revoltado.
E o Wilson ao adentrar o banheiro, certa vez, há muito tempo, ele diz, deparou-se com essa revolta.
Revolta de homens.
Homens que se beijam.
Amam.
Um ao outro.
Algo além do simples toque Wisoniano.
Do Wilson.
Ele, que tem o filho homem em idade adolescente.
Que sai.
Vive.
Curte.
Poderia estar ai.
Amando.
Participando da revolta dos homens.
Do amor.
Ou do amor revoltado.
De Wilson que, pela primeira vez, apalpou uma possibilidade.
A possibilidade de o amor brotar por entre o concreto e o piso emborrachado.
Os sons mistos e os cheiros irresistíveis.
Do sabor humano.
O amor que é o tato.
Humano.

VI

Por todo o lado, pessoas caminham.
Caminham vindas dos ônibus.
Caminham rumo aos taxis parados de fronte as postas do local.
Andam para dentro do terminal, decorrendo de fora.
Do centro da cidade.
Caminham, pois este é um local que existe no meio.
Não no meio da cidade.
Mas no meio da vida.
O terminal é vivo.
Embora construção de pedra e vidro, é também construído de pessoas.
Constituído, melhor afirmando.
Sua constituição brota da polpa frondosa das histórias de cada um que transita ou transitou pelo terminal.
É o inicio e o fim de cada historia.
Saga.
Épico.
Epopéia.
Vida.
Vivência passageira.
Dos passageiros.
Do Terminal.
Rita Maria.
Recepciona cada pessoa que em Florianópolis chega.
Vivência passageira.
Daqueles que vivem ali.
Trabalham ali.
Amam ali.
As histórias que Florianópolis esquece.

_________________________________________________
Thomaz Alves, o autor deste texto, é estudante de jornalismo pela UNISUL, desempregado e desenha com nanquim nas horas vagas.