sábado, 5 de dezembro de 2009

A família “Apelido”.

por Paulo Vitor Dal Ponte

São aproximadamente 19h e preciso esperar mais uma até a chegada do ônibus e o fim da jornada de trabalho. Uma hora é tempo para muita coisa quando não se tem nada para fazer. Pensando na vida que levo, avisto uma mulher, negra, estatura média, magra. Usa uma calça que começa justa na parte superior da perna e termina larga escondendo a sandália rasteira que calça. Em cima da cintura uma camisa de malha pouco espessa, decotada, mostrando um sem volume de seios.

Fico intrigado com aquela figura. Quero conhecê-la, mas o simples oi me afronta. Disfarço e me dirijo até o carrinho de cachorro quente. Ao lado ela olha incessantemente para o pão. Devora-o com a imaginação, pois quando olha na mão, vê apenas uma pequenina cadela. Talvez sua única família, suponho.

Penso em pagar-lhe um cachorro quente, mas avisto um conglomerado de cães que a cercam aquela senhora. Talvez senhorita. Disfarço e começo a brincar com um deles:

— É o pretão, ela responde. - Pode brincar com ele, é manso.

Era exatamente o que eu queria. Uma brecha para poder quebrar o gelo e tentar saber um pouco mais sobre aquela figura. Começo perguntando o nome:

— Sou Pedrita. Você gosta de cachorros? Eu adoro!

Pedrita é moradora da Praça XV há tanto tempo que já a fez esquecer quanto. Vive das ajudas que recebe e fala em alto e bom som:

— Não roubo! Às vezes a fome bate, mas sempre tenho o que comer.

Não exito mais em pagar o cachorro quente que outrora não quis comprar. À espera da refeição, Pedrita conta que toma café e almoça. Menciona um bar, sem se lembrar do nome, que tem café da manha a R$ 1,00. À espera do lanche, continuamos a bater papo, eu perguntando e ela respondendo:

— Mas me conte...

É quando chega um tipo grande, barrigudo, parcialmente careca:

_ Pedriiiiiitaaaaaaaaaaaaa!!!

Após ter subitamente a atenção da moça, ele esfrega a face de seu polegar nos dedos indicador e médio. Parece não querer falar na minha frente o que procura. Como se eu não compreendesse o sinal que fazia:

— Pega lá com eles o dinheiro! Ordena Pedrita

— Como pegar com eles? Eles vão me matar! Eles são malucos! - retruca o jovem.

O jovem sai em disparada e dele não sobra nem o cheiro. Constrangido com a situação fico sem palavras para continuar o papo. Uma realidade nova para mim, rotina para eles. Sem saber o que falar, sou chamado pelo homem do cachorro quente com o lanche pronto. Me faltam palavras, então apenas o entrego a Pedrita, supondo que já terei que pagar o próximo, pois se ela comesse como o olhara anteriormente, não deixaria nenhum farelo cair ao chão:

— Estou com muita fome moço. Eu não sou de ter fome. Mas eu também não era de beber. Faço isso porque uso pedra. Craque não, pedra! Preciso usar! Só que depois que uso, tenho fome e vontade de comer e beber. É assim.

Olha atentamente para a calçada, retira uma minúscula pedra entre as demais e me mostra:

— A pedra que uso é mais ou menos desse tamanho ó.

Suas mãos em momento algum pegam a refeição ao mesmo tempo. Uma usa para comer a outra para acariciar seu cachorro. Magrela é o nome do animal que mais parece o bebê de Pedrita. Ela tem um filho de 12 anos, a quem chama de Juninho. Seu filho mora em Canasvieiras com a avó. Pedrita diz não se lembrar da última vez que o viu, nem da última vez que o teve nos braços. Agora tem Magrela:

— Oi, Pedrita, me dá um pedaço?

É, Silvana chegando. Segundo Pedrita, são amigas inseparáveis.

Ela mora no Monte Cristo, mas o contato íntimo que tem com Pedrita e a avidez com que devora o cachorro-quente me fazem pensar que se não mora, já morou na rua. Depois de duas bocadas, Silvana continua o trajeto.

Pergunto a Pedrita se não tentou construir outra família. É então que estende o braço e aponta para um homem, sentado a uns sete metros de distância. Ela me mostra uma ferida no ombro esquerdo e diz:

— Ele me bateu esses dias, olha isso! Não tem problema, ele pode, é meu marido! Aquele! Olha lá! Ôoooooooo Sem camisa cabeludo, venha cá!

A figura estática do homem nada se altera. Está lá, olhos entreabertos, respiração pausada, espírito em profunda meditação. Pedrita espera alguns instantes por uma resposta do homem, que mantém sua feição. Chateada por não ter detectado retorno algum, olha para o lado e solta um grito:

— Ôooooooo, tia, tais aí escondidinha, é? Vem aqui conversar com a gente!

Tia é uma senhora sorridente. Caminha morosa, com as colunas um pouco curvadas. Chega mansamente, me cumprimenta e senta ao nosso lado. Ofereço-lhe um cachorro-quente, que aceita. Pedrita faceira se põe a falar:

— Olha moço! Essa é a mãe do meu marido! É a Tia!

Como uma sogra pode tornar-se tia, penso eu. Na rua não se chama pela idade, muito menos, pela cor. Não se nomeia pelo gosto ou pela necessidade. Na rua se define um caráter, um modo de ser perante aquela minúscula sociedade paralela e ao mesmo tempo conjunta. Cada um está ali de um jeito diferente do outro. Ou querem esquecer uma realidade que já foi pior que a atual, ou apenas estão ali por força do destino ou do acaso. Nem cruel nem belo, mas real.

Pedrita não conta o motivo que a fez ir morar na Praça XV. Também não precisa falar novamente o que já disse intuitivamente. Na Praça tem de tudo, sério e risonho, fechado e tagarela, crente e ateu, feliz e triste, drogado e limpo.

Entrego o cachorro quente a Tia. Ela o encosta no colo. Já se passaram mais de uma hora e por incrível que pareça, Pedrita ainda comeu o seu lanche.

As duas coreografam a mesma cena. Com a ponta dos dedos indicadores, médio e polegar, pegam uma fatia do cachorro-quente. O transporte até a boca é lento e a degustação mais ainda. Não se preocupam em devorar o alimento e logo correr atrás do próximo. São calmas, fazem da refeição um momento prazeroso, como há muito, minha rotina alucinada não me deixa fazer.

Tia me agradece a gentileza e me deseja ter sempre mais. Ela está na rua acerca de um mês. Veio buscar seu filho, o cabeludo sem camisa. Ele é dependente químico e passa seus dias meditando na praça:

— Meu filho é minha preciosidade! - conta.

Pergunto sua idade:

— Sou mocinha! - responde ela.

Tia é devota de Igreja Evangélica, onde busca forças para retirar o filho das ruas. Ela não conta onde dorme, nem o que faz para ganhar dinheiro. Afirma apenas que não pede esmola e que Deus vai lhe mostrar o caminho certo, sempre.

— Onde a senhora mora?

— Aonde deus me mostrar.

— Você possui algum trabalho? De onde tira seu sustento?

— De onde deus me levar.

— O que você costuma comer?

— O que deus me der.

A alegria de Tia passa ternura. Ela fala, observa, muito receosa tenta adivinhar o que penso. Fala sempre sorrindo, talvez para o ouvinte tomar como brincadeira alguma verdade que ela precise contar no momento.

Pergunto por que o filho dela está ali. O sorriso cai por terra e o silêncio toma conta. Andréa acabara de terminar seu lanche e tia parece não ter forças para segurar o seu:

— Meu filho puxa drogas, moço! Eu não sou disso! Não fumo, não bebo! Mas estou feliz por estar com ele e vou conseguir tirá-lo daqui.

As drogas não chegam a amedrontá-la, mas a afrontam. É um inimigo declarado que Tia combate diariamente. Como esse inimigo não consegue atacá-la, vai em seu filho que não tem a mesma força:

— Moço, meu trabalho é fazer o bem. Quem trabalha fazendo o bem não precisa ter medo.

A partir daí, Tia se retrai. Continua sentada conosco mas não responde mais as perguntas. Se responde, é com sim ou não, pondo em todas as respostas a palavra Deus. Pergunto se teve algum outro filho? Se ainda fala com o marido? Se fez outra família na rua, ou se tem amigos nela.

O sorriso dela volta:

— A gente conversa sempre por aqui. Às vezes isso é um berreiro só. Quando ganhamos alguma coisa de pessoas boas aí sim vira uma festa.

Tia afirma não pedir dinheiro pra ninguém. Apenas agradece se alguém lhe oferece algo:

— As pessoas passam aqui e me dão dinheiro. Eu não peço, mas se me dão, não é nada ruim, né querido? Meu filho às vezes pede. Mas ele tá novo, tem 35 anos, não precisa disso.

Pedrita ri. Não acredita no que Tia acabara de falar e confidencia:

— Ele não tem 35 nada. Tem 50, 60.

Tia baixa sua cabeça e tenta esconder a face, a voz muda de entonação. Parece envergonhada. Ela é esperta, provavelmente percebeu o que eu estou pensando. Se ele tem 50 anos e é filho de Tia, ela deve ter pelo menos uns 15 anos mais. O fato de as pessoas a acharem velha a amedronta.

Outro fator que intimida o morador de rua é a hora de dormir. Pedrita tinha medo dessa hora. Quando a noite cai, o movimentar barulhento da capital é substituído pelo conversar das corujas:

— Tinha medo! Hoje não tenho mais! Além de magrela, tenho mais quatro cachorros que fazem minha segurança durante a noite.

Pergunto se a policia não os protege:

— A Polícia? Pra que de polícia quando temos os cachorros. Enquanto dormimos, eles nos guardam. Os policiais até já ameaçaram dar tiros nos nossos cachorros.

Enquanto fala, Pedrita aponta para a direita, estica os dedos indicadores e médio e colou-os, dobrou o polegar e o dedo mínimo e o com o anelar, atira:

— Pá, pá.

Nesse momento um senhor de idade avançada, calça e camisa social, cabelo, barba e bigode bem feitos, que vinha caminhando, pulou para trás em um só golpe de susto. Pedrita não titubeou:

— Oi, senhor. Me dá um dinheirinhooooooooooo. Eu tô com fome.

O senhor pouca atenção dá à moça e como alguém em extremo estado de fúria continua seu trajeto, declamando poesias em baixíssimo som. Alguém poderia até achar que saiu resmungando.

Como se esse diálogo fosse a coisa mais normal do mundo, Pedrita volta diretamente a conversa e talvez já até tivesse deletado aquele senhor de sua memória. Tenta falar algo que sua frequente tosse naquele momento não deixa. Tosse incessantemente. Para apenas quando se esquece. Pedrita tem tuberculose e HIV.

Percebendo a pausa que faço para esperar Pedrita terminar de tossir, Tia inverte papéis de jornalista e fonte e me indaga:

— Você já viu essas caras amarradas? Que coisa mais triste. Passam aqui na praça o tempo todo como um rastro de pólvora. Às vezes a mesma pessoa passa até 20 vezes por dia. Sempre correndo para o trabalho, sempre pensando nos problemas. Essas pessoas se esquecem de viver.

Ofereço mais um lanche a Tia, que aceita. Quando me levanto para pedir, entrego a vez a um moço que chegou no mesmo instante que eu. Para não deixar minhas fontes ao léu continuo batendo papo enquanto os cachorros-quentes do outro cliente são feitos. Intrigado com a demora de quase 25 minutos do meu companheiro consumidor, me sinto seduzido a contar quantos cachorros quentes ele acabara de pedir. Eram 18.

Pedrita vê minha preocupação e brinca com o rapaz:

— O moço, hein! Deve ter família grande, quanta comida você está levando!

Ela recebe um sorriso amarelo do moço que nada diz. Quando ele deixa a barraca, chega enfim a minha vez. Tia escolhe o que quer e o que não quer em seu cachorro-quente e fica esperando o balconista terminar o preparo. Apesar do que disse antes, me pede cinco reais, justificando-se na mesma quantia que anteriormente havia dado a Pedrita. Nesse momento resolvo perguntar como está me pedindo se falou que não pedia. Ela não exita na resposta e ma manda de bate pronto:

— É brincadeira, né querido. A gente gosta de brincar e o senhor me pareceu legal.

É ai que entrego seu cachorro-quente, intrigado com a sua brincadeira de dizer verdades. Tia me agradece dizendo:

— Que deus sempre lhe dê mais!

A vida na rua é uma constante conquista, tanto de espaço como de comida. É o jogo da sobrevivência. Hábitos básicos como escovar os dentes, tomar banho, refeições com horários não são rotina dessas pessoas. Pedrita toma banho ou num hotel, ou na.rodoviária. Seu banho sai em torno de cinco reais. Para comer, Tia não conta seu método, mas afirma ir sempre a um lugar diferente.

Assim os moradores da praça XV vivem, como povos nômades, de lá para cá, batalhando por sua sobrevivência. São mesmo uma grande família, que sorri, que pula que almoça e dorme junto. Eles também brigam, também discutem, mas de apelido em apelido, todos entendem o momento de cada um. Tia é tia. Sempre sorridente, sempre disposta a aconselhar. Pedrita é Pedrita, magra, frágil. Sem Camisa Cabeludo, o dono da casa, sempre meditando e concentrado. Não tem nem tempo para me conceder uma entrevista. Me contento e abro mão da fonte.

Peço para que ambas tirem uma foto. Pedrita pede três reais pela foto e Tia diz que precisa ir para casa. Pergunto novamente onde fica seu canto e ela novamente responde: “aonde deus me levar”. Afasta-se lentamente, passa pelo filho que ainda medita, para a sua frente por um bom tempo, como uma estátua. Talvez tentando conversar por telepatia. Pedrita, contente com os três reais que lhe dou me puxa pelo braço.

— Vamos moço, hoje estou feliz. Vou bater foto com minha família toda.

A moça chama seus cachorros com um só assovio, senta-se no banco da Praça 15, arreganha em sua face a felicidade do instante.

Posiciono a câmera e click, ponto final.

2 comentários:

  1. Wtf tem um parágrafo aí no meio que ficou louco. E qualé a história da idade real da Tia (aka dona Lorita) que eu não cheguei nem remotamente perto de entender?

    E eu não vou arrumar, mas ali no meio Pedrita revelou-se Andréia e depois virou Pedrita de novo. Aliás, PV, qualé a de não usar os nomes certos? E, porra, quanto dinheiro você gastou? hahahaha

    Mas o texto é muito bom, enfim.

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  2. a tia nao falou da idade real dela... apenas suponho que ela tenha uma 65 anos. como a andreia confidenciou que o filho dela tinha 50, imaginei que a mae dele tinha 70, por ai.

    em relação a de nao usar os nomes certos é que nao queria trabalhar os apelidos que todos usar, como se tratam no dia a dia...

    na real gastei cinco reais. paguei um cachorro quente, o resto é um contexto ficcional usado para ligar a historia...
    quanto a trexos loucos, a professora editou umas partes que acabou perdendo o sentido...
    gostaria de saber com quem estou conversando para poder enviar o texto corrigido...

    abraç

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