terça-feira, 31 de maio de 2011

Retrato de um terminal abandonado

Construído para ajudar no fluxo de transporte coletivo da cidade, o Terminal Cidade de Florianópolis acabou se tornando lar para moradores de rua

O relógio marca seis horas, o sol ainda não nasceu, as ruas estão desertas. Florianópolis ainda não acordou. As seis e vinte o cenário já é outro, o movimento começa a aparecer em todos os lugares. Os carros já estão andando pelas ruas, as sinaleiras param de piscar e começam a funcionar, pessoas já estão circulando pelas ruas. Nos três terminais de transporte do Centro o movimento começa a ficar mais intenso. Mas no Cidade de Florianópolis, encurralado entre a desativação total e um sub-aproveitamento, o dia continua com o ar fantasmagórico da noite, à espera de um projeto de revitalização que não sai da gaveta. Em relação aos outros dois terminais do Centro, o cenário no Cidade de Florianópolis é bem diferente.

Na rodoviária Rita Maria, que recebe ônibus de várias regiões do Estado e do país, os usuários de drogas e prostitutas dão lugar para os moradores de rua e pessoas de baixa renda, que aproveitam o nascer do sol para tentar vender algo ou conseguir algum dinheiro com as pessoas que vêm de fora.

No TICEN (Terminal de Integração do Centro) tudo está em ordem. Muito limpo e organizado, as lanchonetes bem delimitadas, os funcionários bem vestidos. Os monitores começam a mostrar os horários de partida das linhas, os banheiros estão limpos e cheirosos. Vigilantes noturnos e trabalhadores da madrugada buscam transporte depois de mais uma noite de trabalho. Enquanto eles vão para casa, milhares de pessoas chegam de todos os bairros da cidade. Gente que acordou cedo, que ficou mais de uma hora em pé no coletivo para poder chegar ao trabalho, na aula, ou em algum compromisso.

A alguns metros dali, próximo da Praça XV de Novembro, está o Terminal Cidade de Florianópolis. Desde 2003 recebendo ônibus da Grande Florianópolis, o local está abandonado, largado à própria sorte. Como um morador de rua que saiu de sua casa para viver nas esquinas das cidades, ele lembra a história das pessoas que são marginalizadas pela sociedade.

As seis e trinta o sol já começa a aparecer. Vários ônibus chegam lotando as plataformas. Banheiros são o sonho de consumo dos usuários. Para usar só tendo dinheiro e vontade para ir até a Praça XV para usar um sanitário pago, o mais próximo. A sujeira reina em todos os cantos.

Com cinco plataformas o local abriga atualmente as linhas de três empresas. Na plataforma um a empresa Imperatriz faz a ligação entre Santo Amaro da Imperatriz e Florianópolis. A Jotur é responsável pela plataforma dois, a mais movimentada, onde o trajeto entre Palhoça e Florianópolis é realizado todos os dias. Na plataforma quatro os ônibus executivos da Transol fazem o transporte mais confortável da cidade. São veículos com ar-condicionado e bancos reclináveis, que param em qualquer lugar, sem ponto específico. Um sonho para o usuário de coletivo normal, mas que cobra um preço mais elevado por esse conforto. A plataforma cinco é dedicada aos grandes ônibus de turismo e para os carros. Idosos, principalmente, chegam cedo para aguarda o veículo que vai fazer a viagem para diversos pontos do país. Os ônibus que ficam neste local, com dois andares, frigobar, banheiro e bancos reclináveis, são um contraste se comparados aos veículos que ficam nas plataformas ao lado. São ônibus pequenos, sujos e sem nenhum conforto. Tem apenas a função de transportar pessoas de um ponto ao outro.

Os horários de maior movimento do Cidade de Florianópolis são no período da manhã, a partir das seis até as nove, e à tarde, depois das 17 horas. O caos faz parte da rotina do local. Quem está pegando um ônibus pela primeira vez fica perdido. As filas se misturam, uma linha passe a juntar pessoas que desejam ir para outro local, não se sabe qual ônibus pegar. Uma rotina frequente, onde só quem anda de ônibus todo dia consegue entender. Mesmo assim a pergunta mais ouvida na plataforma é “Essa fila é para o Linha Direta?”. Um dos trajetos da linha Barra – Florianópolis, o Linha Direta é um dos ônibus mais cobiçados do terminal, pois, ele chega mais rápido no seu destino, parando em poucos pontos. No meio dessa confusão todos conseguem se entender. No final do dia as filas desaparecem e as pessoas embarcam rumo aos seus destinos.

Os objetos mais vistos no Cidade de Florianópolis são sacolas. A grande parte delas são carregadas por mulheres, que entram nos ônibus com sacolas grandes, pequenas, amarelas, verdes ou brancas. Ônibus lotados nada têm de extraordinário. A população nem se queixa mais e procura conjugar a disputa individual por um lugar com alguns códigos de solidariedade. Quem fica em pé acaba recebendo a ajuda de quem está sentado, que se oferece para carregar as bolsas, um alívio para quem não teve a sorte de conseguir um banco no coletivo.

Os ônibus do Cidade de Florianópolis são uma grande fonte de informações. Em uma viagem entre São José e Florianópolis já é possível saber de tudo que está acontecendo na cidade, basta prestar atenção nas conversas paralelas. Dá para saber quem casou com quem, quem está traindo quem, quando o preço da passagem vai subir...

Diferentemente do TICEN, com suas lanchonetes bem organizadas e limpas, o Cidade de Florianópolis não apresenta o mesmo cenário. Basta um banco, o do próprio terminal, um isopor para guardar as bebidas, diversas balas e salgadinhos para a lanchonete improvisada estar pronta. São vários vendedores, cada um ocupando um pilar do terminal, todos se respeitando, ninguém entrando no espaço do outro.

Além de ter um comércio mais informal, o Cidade de Florianópolis tem um sistema diferente de pagamento. Nada de cartão eletrônico, as linhas intermunicipais só aceitam passe de papel, uma forma de pagamento que ajuda a manter o comércio clandestino de passe, com diversos vendedores oferecendo o produto ao redor do terminal. Os comerciantes acabam aceitando o passe como forma de pagamento, ajudando a criar uma moeda universal dentro da estação. Quem tem passe consegue comer ou se deslocar.

A plataforma três é a mais interessante entre todas as cinco. Usada apenas como estacionamento de ônibus, a falta de movimentação faz com que o local seja lar de moradores de rua. Papelões e cobertores velhos dão mais confortos para essas pessoas, que abandonadas pelas famílias e pela sociedade, usam os bancos e o chão frio do local para dormir. Os maiores companheiros desses habitantes são os cachorros, sempre fiéis aos seus donos, e a cachaça, que serve para esquentar e a ajudar a esquecer os problemas da vida.

Entre os frequentadores da plataforma três, alguns chamam a atenção, como o senhor que está sempre bem vestido e fica por diversos dias sentados no mesmo local conversando com os motoristas de ônibus ou com quem puxa conversa com ele. Às vezes ele some, mas depois de uns dias aparece no mesmo lugar.

Com uma promessa de revitalização do local que já dura anos, o Cidade de Florianópolis continua operando todos os dias, com sol ou com chuva. Só não pode chover muito, porque entra água onde os passageiros costumam ficar sentados. Cenas inusitadas ainda são vistas, como a do morador de rua que vende doces às dez horas da noite para comprar pão para dividir com seus companheiros antes de preparar sua cama de papelão para ir dormir. Nesse horário o Cidade do Florianópolis já está vazio, poucas pessoas esperam os últimos ônibus do dia. A rotina está terminando, mas as seis da manhã vai começar novamente. Uma rotina que nunca acaba no terminal velho, patrimônio da cidade que continua abandonado, mas ainda respira como um gigante que se debate muito antes de morrer.
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Filipe Scotti, 23 anos, estuda jornalismo e acredita que, com esta profissão, talvez um dia poderá mostrar a verdade do que acontece no Brasil e no mundo. Gosta de trabalhar com edição e produção de vídeos. É fã de música e documentários e trabalha como assessor de imprensa.

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