sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Um Esboço de Sob Figueira

por Maurício Chichôrro Schütz

Há David, Daniel e Lorita. Houve também Jefferson e Andréia, e, por alguns dias, Índio. Costelinha, Pulga, Neturno, Coisinha, entre outros, moram também - e comem a mesma comida, dividem o mesmo teto, apesar de serem cachorros. Lorita é mãe de David e é David quem cuida deles todos. Todas as histórias convergem para esse mesmo lugar, e desse lugar elas se separam: a Praça XV de Novembro.

Quando nos conhecemos, Jefferson já tinha sido deixado pela mãe ali mesmo - pôs o filho sentado num dos bancos, avisou que ia buscar sorvete e ele nunca mais a viu. Com oito anos, o mundo era dele e ele era de ninguém - e agora 'tava detido no 1° DP por conta de uma briga. Daniel tinha saído de casa, que ia ficando cheia e tumultuada por uma multidão de oito, faltava comida, os irmãos eram menores. Coube aos mais velhos se virarem sozinhos. Já tinha cheirado cola e parado, usado cocaína e parado, injetado heroína - uma vez só e errado, por desconhecimento de método, adormeceu o braço e doeu demais, daí nunca mais -, mas do álcool ele não se livrava (nem parece querer). Andréia já era marcada pela AIDS e pela tuberculose, já ia magra e enfraquecida, viciada em crack; mas um dia ela foi bonita, diz, quando o cabelo era bem cuidado. David já tinha o número XV tatuado no peito e se formado em veterinária; Dona Lorita 'tava só de passagem: tem casa, não dizia onde, e marido. Veio atrás do filho, e só, numa empreitada sem frutos.

Primeiro, há de se dizer: não são mendigos, mas Moradores de Rua. A diferença entre um e outro? Todo um léxico de dignidade. Daniel, de boné e roupas largas, um crucifixo grande no peito, joga olhares enviesados: "Tu tem cara de Civil". Dona Lorita, de olhos de um brilho rico que despontam da pele enrugada, não quer que tirem fotos: "Eu não moro na rua, eu estou na rua. Não serve tirar foto de mim e pôr na televisão, porque eu não moro aqui". Andréia nós quase perdemos quando viu um gravador: "São um bando de corruptos!", ria-nos - mas a polícia nos tomou ela antes da segunda visita, dali pro Presídio Feminino.

A desconfiança e o preconceito se unem. Da polícia, o grupo nutre um asco muito justo, quando numa semana eles já eram dois menos – entre as conversas, cruza uma viatura e, antes mesmo que se veja, é cachorros contra o carro; a voz de David, áspera, ressoa “Fura o pneu deles!”; nem é sério, mas vale o esforço. A rua ensina a dormir com um olho aberto - há vezes em que olho é o cachorro, às vezes é o seu próprio – e a desconfiar de tudo, porque tem maldade que só é: a briga que levou Jefferson foi assim. Vem um homem, recém solto da cadeia, todo cheio de si; entra na casa dos outros e desrespeita a família. O que eles poderiam fazer? Logo antes da nossa chegada, levam “o grandão” embora. De Samu. “Briga boa mesmo, de verdade mesmo, é briga de rua. É pior que vale tudo”, Daniel conta.

Pelo mesmo motivo é que dona Lorita decide que vai embora, para a casa que ninguém sabe onde fica. Ela não pode viver ali, no meio desse terror: entre as garrafadas e socos, entre homens que parecem procurar a morte, tirando sangue um do outro. Ela ama o filho, é claro, e não queria que ele ficasse lá – a outra filha já tinha casado, tinha dado um neto até, tinha casa e todas essas coisas ortodoxas -, mas desse jeito não tem como. David, o filho, quer distância; brigou com a mãe uma outra vez e não aguenta mais nem ver dela a sombra, “Que ela vá embora e me dê tranqüilidade!”. Os dois, juntos, contam a história do Rancor: “Ela me abandonou e me deixou, eu tive que me virar sozinho. Ela fez da nossa vida um inferno; tudo por causa de um homem que agora deixou dela. Cuidou de todos os filhos, menos de mim, e vê agora quem é que cuida dela? Eu. Nenhum dos outros que tiveram tudo: eu”. A História é feita dessas coisas, os pedaços que vão se sobrepondo um a um, as verdades que surgem – Dona Lorita é de Curitibanos: “Ele falou para vocês, não é?” -, e as mentiras que eles constroem; mas o que se pode dizer, quando nas mãos se tem, se não a verdade, toda a infinitude palpável de seus delírios?

A verdade é que, no fim, deles só se leva um gosto, um cheiro, um relance: David transmutando-se da eloqüência de um homem livre ao corpo espasmático, rosto etéreo, olhos quase fechando de um abstêmio sem sua dose, como que com frio nos quase trintas graus de fim de primavera, ou Daniel cobrindo o rosto com o boné em pose para foto. Mas uma verdade maior, num súbito relance, se descobre: vendo as cinzas consumidas de um jornal, o papel já negro e retorcido, apenas alguns pontos ainda incandescentes, Daniel e David nos esquecem: “Não parece a cidade vista do morro?”, “É, parece sim”; “Viu? É assim que a cidade parece lá de cima, de qualquer um desses morros”, nos diz Daniel, “Morro da Cruz, Morro da Caixa, Morro do Vinte e Cinco”. As nossas cidades são muito mais deles, com seus tetos de firmamento, chãos de barro e quartos de litoral.

Desabafo Mental

por Jenniffer Viana

1969, Bethel – EUA, mais de 500 mil pessoas, três dias de uma reunião para o consumo de drogas, música e para a celebração da cultura paz e amor. Era a época mais hippie de todos os tempos. Era o Woodstock. Foi um grande acontecimento para o marco da história da música e dos festivais.

Um movimento conta-cultura onde as mentes eram abertas demais para a época, lá todas as drogas eram legais e qualquer manifestação de desejo era livre. Era assim que a comunidade hippie gostaria de viver, sem privações, sem preconceitos. E livres, era a principal coisa pela qual lutavam, “a liberdade”. Liberdade de escolha, liberdade de pensamentos e ações.

A contracultura hippie estava no auge e incluía protestos anti - guerra, conta o capitalismo, luta pela “liberdade” às mulheres, contra a guerra do Vietnã, entre outros desejos de conquistas. A vida comunitária e o estilo de vida nômade, era prova da negação ao nacionalismo. A vida dos hippies era movida de manifestações e protestos.

Negação ao nacionalismo! Anos 2000. Brasil. Onde está a luta para vermos um país melhor? Longe da corrupção, sem esses cartolas e engravatados que só sabem roubar o dinheiro e a dignidade do povo. – A última manifestação da qual me lembro é o empitchman. Era 1994, eu tinha apenas 10 anos, pouco me lembro do que realmente esse manifesto significou, lembro de uns alunos do meu colégio, lá no Maranhão, com as caras pintadas de verde e amarelo. Pra quê? Pra tirar o Collor do poder? Que eu saiba ela ainda está transitando pelos corredores do Senado Federal. Será que nada adiantou?

Na última viagem que fiz de carro, Florianópolis - São Luís, vi muitos lugares bonitos deste Brasil, paisagens que jamais esquecerei, mais o que mais me marcou foi a divisão que existe no meio do país. Mais ao norte o que vejo são comunidades esquecidas, casinhas de sapê, pessoas transitando em antigas carroças ou montadas no lombo de um jumento. Onde está o Brasil que só cresce? Onde se concretiza o discurso que vemos na televisão?

Será que o que me falta, é refletir melhor sobre o filme que vi ontem?

Ontem assistir Hair, um filme indicado por uma professora minha, minha primeira visão foi de aversão, de achar que aquele musical que mostrou como a cultura hippie vivia nos anos 60 não tinha nada a ver, taxei os personagens de loucos e idiotas. Pensei melhor.

Pensei na vida que levavam longe dessa correria em que vivemos hoje, ignorando a selva de pedra que os rodeava. Acho que preciso fazer alguma coisa do tipo, preciso relaxar, pensar mais em mim, nos meu prazeres. Acho que era somente isso que buscavam, a vida com prazer. E é exatamente isso que falta as pessoas. Olhar ao redor, prestar mais atenção no mundo, nas pessoas, nos sentimentos, olhar mais pra si, sem perder a essência da vida.

A Essência dos Cabelos

por Thomaz Alves

Era noite e nós entramos.
Uma porta de madeira velha e desbotada separa o as escadas da sala de exibição. Um profundo breu nos recebe.
Perceba, eu não estava só. Um colega acompanhava-me naquela noite. Ambos tínhamos a mesma missão.
Deveríamos reviver a década de 60.
Em comemoração aos 40 anos do espetáculo teatral “Hair”, o centro cultural Badesc realizava uma sessão da adaptação cinematográfica da peça. E lá estávamos nós para assisti-lo e escrever sobre, adentrando aquela saleta escura.
Quando os olhos se acostumam com a escuridão, percebemos que há várias pessoas paradas em pé e outras circulando pelos assentos. Algumas já estavam devidamente acomodadas. Não reconheci nenhum dos rostos. Não conhecia ninguém dali.
A pequena tela permanecia desligada. Um cisco de luz agraciava a cabeça dos presentes e meus olhos.
O lugar tinha cheiro de coisa velha.
Resolvemos procurar uma poltrona para nos sentar.
A treva já estava menos intensa. Meus olhos acostumaram-se rapidamente a escuridão.
Avistamos cadeiras vazias. Sentamo-nos numa fileira em que havia apenas uma pessoa. Era a última fileira, rente a parede dos fundos da sala.
Não demorou até fecharem as portas.
Desligaram o pequenino facho de luz de cima de nossas cabeças.
A tela do outro lado da sala ligou. O filme havia começado.
Sentado, com as mãos firmes sobre o descanso da poltrona, com pessoas retardatárias tomando sues lugares nos últimos assentos da sala, mergulhei rumo ao desconhecido.
Desconhecido, sim. Jamais havia visto o filme.
E o que eu posso dizer do que meus olhos viram em seguida? O que posso falar sobre o Hair?
Muito mais do eu supunha ser possível.
Não conheço nenhum filme tão completamente rígido e, ao mesmo tempo, tão excessivamente sinuoso.
Hum. Palavra errada, talvez.
Sabe, as coisas que você faz. Onde você faz e você nem mesmo admite que esteja fazendo. Como você chamaria?
Nesse caso específico, eu chamo de anos 60.
Esse é o filme “Hair”. Hair traduz toda essência daquela década. Todos os elementos estão ali.
É um filme sobre mitologia e juventude. Sobre tudo aquilo que surge imediatamente após a imagem de James Dean em Juventude Transviada.
Os anos 50 chegaram ao fim com uma geração de jovens, filhos do chamado “baby boom” que vivia no auge da prosperidade financeira. Viviam em um clima de euforia consumista gerada nos anos do pós-guerra nos EUA.
A nova década que começava já prometia grandes mudanças no comportamento. Ela fora iniciada com o sucesso do rock and roll e o rebolado frenético de Elvis Presley.
O rebolado era o símbolo.
A imagem do jovem de blusão de couro, topete e jeans, em motos ou lambretas, mostravam uma rebeldia ingênua sintonizada com ídolos do cinema como James Dean e Marlon Brando. As moças bem comportadas já começavam a abandonar as saias rodadas de Dior e atacavam de calças cigarette, num prenúncio de liberdade.
No fim, tudo era sobre liberdade.
Os anos 60, acima de tudo, foram a vivencia de uma explosão de juventude em todos os aspectos.
Era a vez dos jovens. Todos influenciados pelas idéias de liberdade “On the Road”, da chamada geração beat, e que começavam a se opor à sociedade de consumo vigente.
O movimento jovem, que nos 50 vivia recluso em bares nos EUA, passou a caminhar pelas ruas.
Novas mudanças de comportamento jovem surgiram, como a contracultura e o pacifismo do final da década. O ano de 1968, rebelde em sua essência, marcaria o questionamento da liberdade, através de exibições sem censura com o sexo e as drogas como principal método de auto-execução.
1968 foi o ano da esperança de um mundo melhor. A utopia de um mundo pacífico e igualitário. Essa esperança não necessariamente afligia ou corria a algum lado da Guerra Fria intensificada.
Os governos norte-americano e soviético viviam um dos mais acirrados momentos de embate da Guerra Fria. Havia a intensa Corrida ao Espaço (cujo real vencedor seria Kubrick), havia a Crise dos Mísseis e, finalmente, a Guerra do Vietnan.
Os jovens tornaram-se mais largados. Largados na idéia de que sua forma de expressão não assumia caráter político. Nenhum discurso era contra algum regime exatamente, e sim contra o “sistema”.
Esse discurso incluía o uso das viagens alucinógenas advindas de drogas com nomes em siglas e as confraternizações cantadas.
A juventude dos anos 60 não temia uma oposição verdadeiramente radical. Não temiam outro jeito de disseminação de ideal. Defendia-o com prazer e em absoluto.
Tudo residia na falta de discursos muito geniosos ou na posse de armas.
Na realidade, é possível perceber certa posição meio socialista. Um socialismo baseado na utopia da igualdade, e não num alinhamento às posturas soviéticas. Talvez, partindo deste ponto ideológico-utópico, existisse até mesmo um arremedo de anarquismo, como desfilariam algumas bandeiras nas grandes reuniões nos parques.
Perceba, no entanto, que a luta era contra a alienação e a falta de individualismo, ambos provocados pelo sistema em vigor. É interessante pensar que o movimento em si, funcionava muito mais como uma forma de fuga, uma alienação do que de libertação. Lutava-se contra algo que eles mesmos faziam.
Seria trágico se não fosse cômico.
O fato é que, com os ideais do movimento, também se formou revoltas nos países vermelhos, como a Primavera de Praga e a Reforma Cultural Chinesa.
Afetou também outros países, dados a revoltas contra o sistema. Em Paris, exatamente em 1968, a reunião estudantil e operária também seria grande pretexto para o idealismo dos jovens da época.
Partindo de motes como “a imaginação no poder” e “é proibido probir” todo o mundo foi alertado, para desespero dos burocratas, que fechariam o poder. E isso iria acontecer aos países socialistas, em que o próprio Mao-Tse Tung voltaria sua posição quando no poder, e Stálin derrotaria Kruschev. Aconteceria também aos países ao redor dos Estados Unidos, como a própria França, e os países latino-americanos tomados por ditaduras militares.
Independentemente de qualquer ideologia política que alguns insistem em levantar para tirar o romantismo e a pureza que se têm em torno da década, os hippies ainda são valorizados quando se olha para a Guerra do Iraque e lembra-se da Guerra do Vietnam.
Essa foi a década de 60. Esse foi Hair.
Isso porque o poder de Hair, com o perdão do clichê, transcende qualquer coisa do que isso.
Mas há algo válido a se dizer aqui: Não sou muito afeiçoado ao ideal, aos hippies, e aos anos 60. Não é a minha época, não é a minha história. Sou um produto do meu próprio tempo. Meu tempo diz que não se muda o mundo com cabelos comprido e frases bonitas. E o diferencial de Hair reside em quebrar algumas barreiras, ao inserir pequenos traços de equilíbrio e falta dele durante a obra.
Não diria que é uma “mensagem” que o filme passa. Diria que é um sentimento bastante acolhedor. E que me deixou modificado ao final de cada sessão.
Aprendi que há questões de equilíbrio a se considerar, quando falamos sobre responsabilidade.
Nós fazemos escolhas.
Mais ninguém pode viver nossas vidas por nós. E devemos confrontar e aceitar as conseqüências de nossas ações.
Ainda hoje vários filmes são feitos tentando resgatar o período ou contextualizados por volta de 1968. Lembre de Bertolucci e seu Os Sonhadores. Lembre de Dennis Hopper e Peter Fonda em Sem Destino. Todos muito bons.
Nenhum tão essencial quanto Hair.

O Jardim do Mundo

Por Maurício Chichôrro Schütz

Nós cultivamos nossas flores em canteiros nas portas dos condomínios; em casa, dentro de vasos – molhamo-nas com água do filtro e lá elas ficam. As flores selvagens, aprisionadas, são nossas flores de concreto. As rosas, as violetas, os lírios, as orquídeas como enfeites da lembrança de um Flower Power vencido, ou murcho, ou até mesmo carbonizado pelos rios de napalm.

Na década de 60, os bebês atômicos, filhotes militares das guerras mundiais, deixaram as fraldas e ficaram assim mesmo: nus, cabelos rebeldes, os olhos abertos para aprender todas as coisas que o mundo cantava. Os hippies não apenas viveram, cantaram, dançaram, comeram, beberam e injetaram o amor: acima de tudo, foram militantes do amor. Não existe lápide da morte de toda uma causa – porque nenhuma idéia morre, por mais que seja soterrada e abatida -, mas as pequenas coisas que fizeram ruir o movimento são marcantes.

Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison – ilustres profetas de uma maldição do inferno psicotrópico, mortos aos vinte e sete anos, pés entrando no Mundo dos Adultos – deram o primeiro recado: a Revolução era para os jovens. A energia canalizada num único feixe de esperança, de vitória, foi dissipada pelo tempo. Bob Dylan, padroeiro a contragosto do movimento hippie, chegou a admitir recentemente que não conseguiria escrever hoje as letras do passado. Mas, principalmente, a luta pela Paz perdeu a sua guerra, seu Vietnam, e o Amor... o coração é sempre o primeiro a se partir, ele nunca teve muita chance contra as vilanias da humanidade. A luta dos hippies, os ideais de amor e desordem, deram lugar, de coração partido, à anarquia punk: a Era de Aquário tornou-se a Era dos Vícios e, então, a Era da Imagem. Fica a saudade de nossos, descalços no sol, heróis de vinil.

Margarida Baird, atriz brasileira, em palestra do dia 16 de outubro no Badesc – seguida logo pelo filme Hair, musical do âmago hippie de 1979, versão cinematográfica adaptada da peça de 69 -, ela mesma uma militante do amor, defende a recarga daquela energia. A juventude alienada, acomodada de hoje – tão cheia das informações e certamente apaixonada, vivendo o amor como pode, parece vencida pelo sistema. Exaltando uma arte mais política, com mais opinião e força, Margarida incorpora alegoricamente o fim dos hippies: o sonho intacto de um jardim do mundo nos cabelos grisalhos, nas responsabilidades da vida – a angústia de ver a batalha sendo vencida pela omissão dos jovens de hoje.

A paixão do mundo, a própria liberdade da arte, da criatividade, da vida vivida ao cerne – vida com V maiúsculo – perdeu a direção. Os heróis de ontem são mártires, vistos como vagabundos derrubados e marginalizados com o mundo comunista: não se luta mais pelas flores, mas por dinheiro. E aí resta alguma esperança: o dinheiro, como as flores, também é inflamável.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

À Nur de Salim

Por Laís Campos Moser

“Cala. Pensa. Concentra-se. Se esforça. Se perde para se achar. Ativada, a memória recua. Busca resgatar o passado. Retirá-lo do mais fundo do tempo. Devassar o escuro abismo. Tornar hoje o ontem”. O fragmento do romance Nur na Escuridão, de Salim Miguel, parece traduzir fielmente uma noite de conversa com o escritor. “Sou um jornalista que escreve ficção”. Assim ele se autodefine, por mais de uma vez. Sua figura calma, simples, simpática e extrovertida transforma-o em um ser extremamente humilde diante de sua vasta produção literária e dos muitos prêmios acumulados em seus 85 anos de idade.

Nascido no Líbano, em 1924, Salim imigra para São Pedro de Alcântara com a família quando ainda é criança. E é essa atmosfera que permeia parte de sua obra: a cidade de Biguaçu, os libaneses, os alemães. Narrar a vida de modo minimamente completo do escritor demandaria laudas intermináveis de quem conheceu de perto a ditadura e a prisão; de quem soube que os livros de sua livraria foram queimados em praça pública; de quem difundiu a arte moderna no Estado por meio do Grupo Sul; de quem se fez autodidata; e para quem é intrínseca a poesia, a cultura e a arte.

O mais premiado escritor catarinense tem um estilo extremamente peculiar de escrever. Seus personagens pensam e Salim escreve. O leitor entra na narrativa como se estivesse na própria consciência dos personagens. Sente o ritmo, a dinamicidade, a intensidade desses pensamentos. E muitas vezes se depara com a necessidade de parar por um instante, respirar, tomar fôlego e, então, prosseguir com a leitura. E para ele a crítica do leitor é parte fundamental de seu processo de escrita: “A um leitor passivo eu prefiro um leitor parceiro”, brinca. E complementa: “Como autor, o leitor é muito mais importante que o crítico”. Quando o livro chega nas livrarias ele não é do autor. “Ele é e não é”.

E sobre seu processo de criação Salim afirma que há várias maneiras de um escritor chegar a um livro. Acredita pouco em inspiração e muito em vocação, talento e persistência. “O último é o meu caso”, assume. “A palavra tem som, cor, cheiro. E é preciso acasalá-la com a palavra que vem antes e depois”. O escritor revela, ainda, que já rasgou muitas páginas permeadas de sentido. “Eu escrevo demais e rasgo demais”. Mas certas criações o criador não é capaz de se desfazer: “Rupert eu escrevi quando tinha 24 anos e não consegui rasgar”, declara sobre seu último romance publicado em 2008, Jornada com Rupert, que fala sobre os imigrantes alemães em Blumenau no século XIX.

Salim Miguel está sempre atento a tudo e a todos. Muitas de suas histórias – o escritor já soma mais de 30 livros publicados – são narrativas a partir de momentos e vivências do próprio autor. É esse o caminho de A voz Submersa, que mescla duas situações vividas por ele: uma vizinha que se deslocava ao seu andar para conversar com a mãe no telefone em alto e bom som; e o traslado do corpo de um estudante assassinado. O romance Nur na Escuridão – pelo qual recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte pelo melhor romance de 1999, e o Prêmio Zaffari & Bourbon da 9º Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo – conta a história de uma família que vem do Líbano para o Brasil. Sua família. Por isso o autor afirma, com muita convicção, que “nada sai do nada”: “Um texto literário não tem nada a ver com a realidade, embora se baseie na realidade”.

Casado com Eglê Malheiros, primeira mulher a se formar em direito no Estado, Salim refere-se a ela constantemente enquanto fala sobre sua vida e suas obras: “Ela é de muito mais abrangência cultural do que eu”, declara. Eglê também foi presa durante o regime militar, pelo fato de ser comunista. E foi nos 48 dias de prisão que o escritor libanês diz ter conhecido melhor o “bicho-homem”: “Porque caráter, critério, ética, vem de dentro das pessoas, independe de religião, partido político”. E a partir dessa experiência lançou o romance Primeiro de Abril – Narrativas da Cadeia.

Salim Miguel ainda tem fôlego para mais narrativas. Planeja lançar no final deste ano outro livro, e pretende conseguir, em um ano, financiamento para um filme adaptado do romance Nur na Escuridão. Sentado em uma sala de aula, rodeado por alunos, Salim sente-se muito tranqüilo para contar suas histórias. Deixa transparecer uma vontade de contar mais do que lhe é perguntado. E deixa a certeza de ser nur, luz, no âmago da literatura catarinense.

Personalidade – Salim Miguel

Por Carlos Loff

No encontro com os estudantes de jornalismo, realizado na Unisul, esteve presente o escritor catarinense Salim Miguel. Entre várias perguntas afins sobre seus mais de 30 livros publicados, uma, possivelmente, causou certo distanciamento de todo o discurso, às vezes pronto, que esta personalidade poderia ter. A provocação teve como intenção, descobrir como nasce uma obra e seus personagens. Nesta hora Salim Miguel percorreu a sala com os olhos por alguns segundos e disse “os temas ou personagens é que me procuram, tudo que escrevo se baseia em algo que presenciei".

Neste caso basta ler mais de um de seus livros para perceber que o cotidiano dos personagens não é distante daquilo que o próprio autor viveu ou vive. Mas apenas este olhar no cotidiano não é receita de sucesso, afirma o escritor sobre o seu processo de criação, “acredito em três coisas, não acredito em inspiração, ou muito pouco, mas acredito em vocação, em talento e em persistência”.

Acadêmicos do curso de Jornalismo já confidenciaram algumas vezes, precisar disto que o autor dispensa – inspiração – sem ela os estudantes confessam ficar diante de uma folha em branco por horas no momento de escrever um bom texto. Foi aí que Salim continuou, “Vocação todos nós temos, e alguns têm a sorte de ter vocação para mais de uma coisa, talento é preciso a gente regar como quem rega uma flor, e a maneira de regá-lo é a persistência, aonde quero chegar, isso é a persistência que faz”.

Salim é Autor de 30 livros, entre contos, crônicas, romances, dos quais se destacam: “A Morte do Tenente e Outras Mortes”, “A Voz Submersa”, “Nur na Escuridão” (que recebeu o prêmio de melhor romance de 1999 pela Associação Paulista de Críticos de Arte, e o Prêmio Zaffari & Bourbon da 9º Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo), “A Vida Breve de Sezefredo das Neves, poeta” (indicado para o Prêmio Jabuti) e “Mare Nostrum”. O escritor se destaca ainda como Doutor Honoris Causa pela UFSC. Foi reconhecido também como intelectual do ano pela União Brasileira dos Escritores e Folha de S. Paulo, recebendo o Troféu Juca Pato.

A Personalidade Salim Miguel, é um homem que encontrou na leitura a realização pessoal e o caminho para traçar uma carreira profissional bem sucedida. Atualmente enfrenta o pior dos problemas de saúde que pode acometer um escritor: uma deficiência visual. Mesmo diante desta dificuldade o escritor assume que nunca deixou de encontrar prazer na leitura, “Machado de Assis e Graciliano Ramos. Apenas dois exemplos. Mas se eu tivesse que ser obrigado a dizer quais os livros que mais me marcaram, eu teria dois: “Dom Quixote” e “As Mil e Uma Noites”. Acho que “Dom Quixote” deveria ser um livro obrigatório. Este foi o livro que talvez mais me marcou”.

A perda parcial da visão o obrigou a rever sua rotina, Hoje Eglê, a companheira de jornada e de muitas atividades é quem, quando o assunto interessa, chama a atenção de Salim para alguma notícia de jornal ou revista, mantendo vivo em seu cotidiano um hábito que ele cultivou ao longo da vida, “Parei de ler jornal para dedicar o pouco que posso para os livros", conclui.

Salim Miguel: O Homem na Celulose

Por Maurício Chichôrro Schütz

Oitenta e cinco anos e as rugas que vêm com a idade, o cabelo branco, até mesmo a roupa, ou pelo menos o estilo, com esse ar de antigo, de tempo percorrido e os olhos de vista turva, traídos pelo tempo, ou só cansados por ele. O chapéu na mão, certamente. É uma arapuca da qual não se escapa: ver o escritor com olhos de literatura.

Salim Miguel, ao alcance de nossas mãos, disse que toda a literatura é feita de "pessoas reais e pessoas de papel". O homem real me escapa, é uma lembrança; mas o homem no papel é assim: libanês de nascença, mas brasileiro de criação. Jornalista, dono da, nos dias de uma Florianópolis de memória, Livraria do Salim, leitor voraz e eclético. Preso como comunista pelo regime militar, escritor publicado há mais de 50 anos, de mais de 30 livros, entre romances e compilações de contos e onde mais se ajuntem palavras. O marido apaixonado de Eglê.

De início, há uma simplicidade de gente sábia – em nota de graça, diz que o contato com a juventude rejuvenesce os velhos, humildemente omitindo que o contato com os sábios engrandece os jovens. A fala honesta de histórias – conta que os textos são autobiográficos na concepção, nascidos das histórias que ouviu ou vivenciou – revela, na transparência da retórica, o verdadeiro Homem de Papel.

“Primeiro de Abril” conta de quase dois meses aprisionado pelo Regime Militar e de como, na liberdade da rua, a livraria do Salim, que na época sequer ainda era sua, mas retinha o apelido amável indissociável de sua presença cultural, deu forçadamente centenas de livros como combustível para uma fogueira militar contra a subversão de nossa pátria amada. Com o sorriso aberto e o tom jocoso, de jeito doce, não lamenta, mas diverte-se ao contar da ignorância das mentes psicóticas dos fascistas que queimavam “O Vermelho e o Negro”, romance de Stendhal e obra seminal do realismo francês do século XIX, ressaltando o vermelho do título como propaganda socialista. Em “Nur na Escuridão”, romance que deu ao escritor a nacionalidade de quem já era uma pérola da literatura catarinense, Salim traça a história de uma família imigrante do Líbano, não muito distante da sua próxima. E assim se segue, como bom jornalista, nas páginas dos romances e nas palavras de seus contos, a construção de um personagem pulsante de vida.

Sobre o processo de criação, de livros e da vida, Salim fala do trabalho árduo e persistente que é escrever. As palavras que se perdem, rasgadas e descartadas por não serem boas o bastante – apenas uma pilha escapou, o romance mais recente, “A Jornada de Rupert”, que relutantemente se guardou junto ao mofo de quase 50 anos e triunfou no coração que não conseguiu abandoná-lo – são vítimas da transpiração; as que sobram e ganham luz, são resultado da vocação, do trabalho de uma vida e de um exigente filtro de excelência.

A história segue palavra a palavra. Pelo menos três livros carregam novas páginas de um corpo tanto literário quanto literal, que solidificam o escritor, jornalista de coração, no campo das letras brasileiras e como parte fundamental da nossa cultura catarinense.