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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Única Apresentação

por Carlos Loff

Em frente à catedral. Esse foi o ponto de encontro.

Não demorou muito, e, ali mesmo, surgiu o primeiro personagem. Visto das escadarias uma imagem gritava. Possivelmente não pelo seu jeito transeunte, afinal muitos são anônimos, neste caso uma mulher, possivelmente uma moradora de rua, agora dada como anônima duas vezes.

Ela chama a atenção, quer muito ser notada. Por mais que a visão humana ajuste o foco para registrar qualquer outra informação, seria quase que impossível não enxergá-la

Com uma máscara no rosto e um embrulho nos braços (balançado bruscamente), a mulher, numa primeira impressão, aparentava carregar algo frágil. É como se por um momento uma apresentação de mágicas fosse oferecida. Aqui o amontoado de pano era a sua cartola e na ânsia de esperar pelo coelho, saiu dali uma cadelinha.

Vista de longe a mulher se mostrava infantil, tomada de uma personalidade saltimbanco, como se soubesse que ao entardecer, diante da escadaria da catedral, um picadeiro se montasse ali, e por um momento, uma cortina de pombos se abriu. Coincidentemente sua apresentação foi iniciada.

Interagia com muitos que passavam. Algumas vezes a cadelinha lhe roubava a cena. Logo depois era tomada por um monólogo, tamanha expressividade em seu rosto. Como se desenhasse páginas de sua vida. Como se por muito tempo tivesse tentado contar para alguém a sua história, tudo o que passou, sua escolhas, suas perdas, mas, nas ruas faltam ouvidos, uma vez que elas possuem boca.

E ali ainda estava a cena, a mulher era também maternal, era visível o esmero oferecido ao seu “filhote”. Diante do público alguns lhe esboçavam sorrisos, outros continuavam ao celular, e ainda havia aqueles, cujo ponto fixo, era a contagem regressiva do semáforo.

Para sorte da platéia ela não se importava com as atenções desviadas, é como se bastasse apenas um olhar. Esse supostamente seria a troca, ela não queria aplausos.
E como todo artista talentoso ela recebeu o reconhecimento. A platéia foi até a “coxia” para encontrá-la e saber sobre seu personagem.

O banco da praça, era a sua cadeira e como se um espelho fosse imaginado a sua frente, retirou a maquiagem, neste caso a máscara.

Andréia, este era o seu nome. “Coisinha” é como chamava o seu “filhote”. A artista demonstrava simpatia e atenção, respondia a todas as perguntas, “a mascara? Tuberculose - responde. Um diálogo se fez por tentar diante do público levado até ela, mas, mais (e mais) cachorros aparecem e eles tiram toda a sua atenção.

Andréia vive o presente e mostra não querer falar de trabalho, afinal acabara de fazer uma apresentação. É de se imaginar que para entender a sua história, será preciso assisti-la contada todos os dias, ali, depois que as cortinas de pombos se abrem.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Personalidade – Salim Miguel

Por Carlos Loff

No encontro com os estudantes de jornalismo, realizado na Unisul, esteve presente o escritor catarinense Salim Miguel. Entre várias perguntas afins sobre seus mais de 30 livros publicados, uma, possivelmente, causou certo distanciamento de todo o discurso, às vezes pronto, que esta personalidade poderia ter. A provocação teve como intenção, descobrir como nasce uma obra e seus personagens. Nesta hora Salim Miguel percorreu a sala com os olhos por alguns segundos e disse “os temas ou personagens é que me procuram, tudo que escrevo se baseia em algo que presenciei".

Neste caso basta ler mais de um de seus livros para perceber que o cotidiano dos personagens não é distante daquilo que o próprio autor viveu ou vive. Mas apenas este olhar no cotidiano não é receita de sucesso, afirma o escritor sobre o seu processo de criação, “acredito em três coisas, não acredito em inspiração, ou muito pouco, mas acredito em vocação, em talento e em persistência”.

Acadêmicos do curso de Jornalismo já confidenciaram algumas vezes, precisar disto que o autor dispensa – inspiração – sem ela os estudantes confessam ficar diante de uma folha em branco por horas no momento de escrever um bom texto. Foi aí que Salim continuou, “Vocação todos nós temos, e alguns têm a sorte de ter vocação para mais de uma coisa, talento é preciso a gente regar como quem rega uma flor, e a maneira de regá-lo é a persistência, aonde quero chegar, isso é a persistência que faz”.

Salim é Autor de 30 livros, entre contos, crônicas, romances, dos quais se destacam: “A Morte do Tenente e Outras Mortes”, “A Voz Submersa”, “Nur na Escuridão” (que recebeu o prêmio de melhor romance de 1999 pela Associação Paulista de Críticos de Arte, e o Prêmio Zaffari & Bourbon da 9º Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo), “A Vida Breve de Sezefredo das Neves, poeta” (indicado para o Prêmio Jabuti) e “Mare Nostrum”. O escritor se destaca ainda como Doutor Honoris Causa pela UFSC. Foi reconhecido também como intelectual do ano pela União Brasileira dos Escritores e Folha de S. Paulo, recebendo o Troféu Juca Pato.

A Personalidade Salim Miguel, é um homem que encontrou na leitura a realização pessoal e o caminho para traçar uma carreira profissional bem sucedida. Atualmente enfrenta o pior dos problemas de saúde que pode acometer um escritor: uma deficiência visual. Mesmo diante desta dificuldade o escritor assume que nunca deixou de encontrar prazer na leitura, “Machado de Assis e Graciliano Ramos. Apenas dois exemplos. Mas se eu tivesse que ser obrigado a dizer quais os livros que mais me marcaram, eu teria dois: “Dom Quixote” e “As Mil e Uma Noites”. Acho que “Dom Quixote” deveria ser um livro obrigatório. Este foi o livro que talvez mais me marcou”.

A perda parcial da visão o obrigou a rever sua rotina, Hoje Eglê, a companheira de jornada e de muitas atividades é quem, quando o assunto interessa, chama a atenção de Salim para alguma notícia de jornal ou revista, mantendo vivo em seu cotidiano um hábito que ele cultivou ao longo da vida, “Parei de ler jornal para dedicar o pouco que posso para os livros", conclui.