quarta-feira, 3 de março de 2010

Álbum das Ruas

(Editorial do jornal Fato & Versão especial sobre a primeira vivência dos estudantes de jornalismo da Unisul com os moradores de rua, publicado em 2004)

por Raquel Wandelli

- De onde você é, Lurdinha?, arrisquei-me a perguntar.

- Eu sou da rua, tia.

Aos 20 anos, a rua é para Lurdinha o seu território. Ali gastou a infância, aprendeu a arranjar o pão, se fez mulher, teve uma filha, adoeceu, conheceu o desprezo e o amor verdadeiro. Desde que desceu do Morro do Mocotó, ranhenta e de pés descalços para estender as mãozinhas aos motoristas de sinaleira, nunca mais teve um teto, além do forro de estrelas ou de relâmpagos. A rua é sua casa. De meias paredes, móveis de pedra que mudam de posição a cada dia, onde o quintal é o próprio quarto. A rua grande, aberta, é o esconderijo das meninas espancadas, dos meninos explorados, que resistem à opressão.

A rua é mãe e madrasta. Acolhe os desvalidos em suas praças, viadutos e marquises, oferecendo-lhes tudo e nada. E também é o lugar dos proscritos e dos que se auto-exilam. Nas ruas há festa, paixão, ilusão, afeto, graça e riso. E as ruas matam lentamente de pneumonia, de tuberculose, de fome, de leptospirose, de depressão e de desamor. Os habitantes das ruas dependem do que dela tiram para viver, mas a rua é também um lugar de liberdade. Morar nas ruas é um gesto de desistência de toda forma de sistema - é um ato de covardia e também um ato de coragem.

Nas ruas se foge da escola, mas as ruas ensinam a pensar. Quem mora nas ruas não tem medo da morte, embora a vida esteja sempre por um fio. "Já perdi a conta de quantas vezes morri", diz Kátia. A gente aprende nas ruas que se morre muitas vezes em uma vida. Morar nas ruas é viver em meio aos ratos, à esmola, à sujeira, ao desprezo e à piedade dos passantes e ainda assim manter dignidade pra continuar sendo gente. A rua é o local de encontro de almas cansadas, onde se enlaçam amores eternos e amizades de ferro.

Quem mora nas ruas não tem medo de morrer, mas tem muito medo de dormir. Nas ruas se aprende com esses habitantes sem teto absolutamente estranhos e reais a amar os cães sem dono que vigiam o sono breve e assustado dos notívagos. É também o lugar de uma rede de solidariedade poderosa e silenciosa, em torno da qual sobrevive um exército de desvalidos e desesperançados. Nas ruas vinga o comunismo de verdade: a cachaça se divide, a droga se divide, o cigarro se divide, o cobertor se divide, as moedas passam de mão em mão e o resto de álcool na garrafa ferve para fazer a bendita bóia da noite, que gira uma louca ciranda, passa de boca em boca até que um alimento raso chegue a cada beco escuro para manter a vida desses olhos noturnos. A vida que insiste em brotar dos asfaltos.

E também se dividem as dores e as alegrias. Nas ruas se formam extensas redes de nômades, famílias de cúmplices sem sangue, que nada têm em comum – nem idade, nem história, nem origem - a não ser a luta para manter algo inominável que os caracteriza como humanos e, quase sempre, o vírus HIV. Famílias que penduram negros, analfabetos, letrados, loucos, inocentes e condenados, gente de berço e gente que nem tem memória, gente que parece ter nascido do repolho. Na rua dos Ilhéus há a ilusão de Piolho, que faz pinta de malandro, deitado em seu colchão, fazendo escárnio da dor e do frio, com quatro parafusos externos que remendam a fratura na tíbia e acreditando tirar vantagem dos que têm rotina, casa e comida quente: "Eu, hein, trabalhar por um salário mínimo, numa sala fechada, ficar com problema de coluna e tendinite nos dedos?" O conforto não paga o sacrifício. Quem mora nas ruas se negou a assinar o pacto fáustico, e a entregar sua alma ao diabo. Estar nas ruas é não ter o que perder.

A rua ensina a regatar os saberes mais simples. Para estar nela é preciso a sabedoria dos ventos, há que se adivinhar o frio, a chuva, é imprescindível saber o horário do sol. E também é preciso saber a hora que o restaurante fecha – antes de os restos irem para o lixo, o dia que o albergue não lota e quando o dono do hotel não vem para conseguir um banho mais demorado por R$ 3,00. Pode parecer individualista abandonar tudo para estar nas ruas – e de fato estar nas ruas pode ser o preço que se paga para ser um indivíduo -, mas muitos vão para as ruas para proteger as famílias de sua loucura, os deprimidos para que não compartilhem seu desespero, os aidéticos de seu definhamento. Da mesma forma, os alcoólatras e os viciados em drogas querem estar sós com seus vícios.

Nas ruas se aprende a amar o feio, o sujo, o ruim, a não ter nojo, a suspender os véus. Com esses seres noturnos a gente aprende a ser gente. E por nos livrarem de toda pena que não é compaixão, por nos terem feito sentir pena de nós mesmos, porque não sabemos fritar bolinhos em uma lata, nem suportar o vento Sul de madrugada, por nos terem feito sentir pena dos que trafegam na Beira-Mar e correm o risco de nunca conhecer gente como Piolho, Mari, Cleber, Dr. História, Lurdinha, Kátia..., por nos terem convidado para a janta, por nos terem confiado seus segredos, suas culpas, suas meias-verdades, por deixarem que alguns de nós passassem a noite ao seu lado, por tirarem a garoa de nossos olhos, nada temos a oferecer. Nada, além de un inventário incompleto da vida nas ruas, com as fotos de cada um e as histórias que nos contam. A narrativa é uma forma de se eternalizar no mundo, de driblar o destino da morte. Um povo sem imagem é um povo ameaçado de extinção, já escreveu Fernando Solana. E porque queremos que sejam eternos publiquemos agora seus nomes e seus rostos para cobrar seu direito à existência.

terça-feira, 2 de março de 2010

À Atlântida dos proscritos

por Raquel Wandelli

Já soaram as seis badaladas do ângelus quando as formigas-operárias que conferem às ruas um ar doméstico e executivo se retiram em direção aos lares e academias. Nesse instante mágico em que o disco vermelho-sangue mancha o horizonte, uma pequena multidão começa a deixar os porões da cidade. Sob o manto noturno de sonho e horror se arriscam os habitantes dos coretos, praças, bancos, cantos fétidos de urina, ocupantes legítimos dos aposentos abandonados e mal-iluminados do centro de Florianópolis. Ao seu encontro caminho com meu pequeno pelotão de estudantes de jornalismo que acabaram de ler e debater O segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell, A hora da estrela, de Clarice Lispector, Relato de um Náufrago, de García Marquez e Entrevista, o diálogo possível, de Cremilda Medina, todos marcados por experiências radicais de alteridade na literatura e no jornalismo.

Uns lampiões vitorianos flambam o cenário de esfumaçado louro antigo. Luz dourada em fundo amarelo derrama sobre a sarjeta certo charme urbano. E de certa aura nobre se veste a praça dos proscritos Uma cidade se vai e outra se ergue como se atravessando o cordão entre o visível e o invisível, como uma civilização maldita que só emerge no limite entre o dia e a noite. Essa imagem me vem à cabeça e logo a compartilho com meus mestres-aprendizes, mas eles já estão absortos na vivência desse mundo que até então lhes passara despercebido.

Aos sustos e com fome de comida, crack, cachaça e outras drogas da existência, despertam os pelotões de uniforme cor de poeira... Velhos, meninos, meninas, homens e mulheres órfãos de seus filhos e pais. Exilados ou auto-exilados de seus lares que adotam a rua como mãe e madrasta e os cães como amigos. E os velhos com sonhos e traumas de menino e os meninos com olhos e coração de velho que vão saindo das lajotas enchem de vida e verdade faminta essa Atlântida reaparecida. Eles têm úlcera no estômago e cicatrizes nos rostos, pescoço, braços e pernas. As cicatrizes nos interessam...

“A rua não é um lugar digno pra se morar”, diz a placa da prefeitura - à entrada da Praça XV. Tadeu, 29 anos, bem sabe disso. “Estou aqui de passagem”, insiste o moço muito alto, meio negro, meio branco. Mas a rua foi o único porto, rito de passagem, que lhe restou há cinco meses, quando perdeu o emprego de cobrador da Transol e a mulher e se tornou escravo das drogas. “Aqui eu não fico, não é lugar pra mim”, diz o guardião do Coreto da Alfândega, que me pede dinheiro pra comprar fraldas descartáveis em troca de nos apresentar seu submundo.

Resisto e compro-lhe primeiro remédio pra dor de dente e anticéptico antisséptico para os ferimentos na mão que fraturou no dia anterior em uma queda. Mas acabo cedendo. Quem pode julgar as moedas desses habitantes clandestinos, se também a nós, cidadãos legais, pouco ou quase nada escapa de comércio em nossas relações? “Me compra um pacote de fraldas que amanhã vou visitar minha filha”, me pede uma segunda vez, quando lhe ofereço os analgésicos. E já nem sei se me pede ou ordena, com uma dignidade quase insana. A partir de então, nas três próximas vivências de rua traríamos sempre conosco alimentos, livros, jornais, revistas, agasalhos e algumas moedas para de algum modo negociado respeitar a ética dessa economia de trocas simbólicas.

Com a tristeza de uma menina que acaba de entrar na zona e ainda não aceita seu metiê, Tadeu fala do esforço da mãe e da ex-mulher para tirá-lo das drogas e do destino do pai, já morto. “Pegou HIV de mulher vagabunda”. No terceiro encontro, descrevo para ele alguns moradores de rua que conheci na primeira vivência com alunos da Unisul, no outono de 2004. Ao lado de Tadeu, localizo Adalberto, encolhido debaixo de um cobertor de lã em um banco do Coreto. Reconheço-o pelo chapéu de marujo. Cumprimento-o com entusiasmo e me aproximo para apresentá-lo aos dois alunos que me acompanham. Ele corresponde pronta e afetuosamente. “Professora! Claro que me lembro...”. Presenteio-o com um exemplar do jornal-laboratório Fato & Versão especial “Álbum das Ruas”, publicado na época, e pergunto pelo paradeiro dos personagens das fotos. Concluo que o velho negro Adalberto é o único sobrevivente dessa memória. Todos os outros morreram ou desapareceram das ruas.

Lembro-me dos alunos da época, todos já formados, e sinto pelo vínculo que fizeram com aquela gente e pelo que significaram em sua formação. Por um tempo, tínhamos o prazer de saudá-los nos encontros casuais pelas ruas do centro, e nos alegrávamos de saber seus nomes e dos cães de rua que adotavam. Na verdade, era orgulho de ter feito nossos amigos aqueles cidadãos tão estranhos e temidos. Orgulho de não fazer mais parte dos que precisam desviar o olhar para disfarçar o medo ou o desprezo. Com o tempo e a rotina, perdemos muito dessa sensibilidade e talvez eles tenham se tornado quase invisíveis novamente, mas, acredito, nunca desaparecerem por completo da nossa perspectiva. Pensei na nova turma do segundo semestre de 2009 que escolhera o mundo das ruas como cenário de sua vivência, e desejei a cada aluno que fosse tocado pela oportunidade de ter também um impacto profundo no seu modo de ser jornalista e de ver o outro.

Para nossa esperança, ninguém passa imune a essa experiência, muito menos esta turma. Os textos publicados aqui mostram a repercussão na alma, o envolvimento, a negociação de códigos culturais, a perplexidade, o interesse pela história do outro que vive no limite, o esforço de diálogo a que assisti maravilhada. Mostra, sobretudo, a queda (provisória?) de muros que separam o mundo dos cidadãos visíveis e invisíveis. Meu desejo, como educadora, é que esse impacto seja duradouro, se não eterno, para poder vê-los sempre ouvindo as vozes subterrâneas da cidade, tão iguais e diferentes.

Como disse Edilson, riscando uma faixa imaginária no peito com uma candura de moleque que fez parecer indefeso o olhar de início tão agressivo e ameaçador: “Agora vocês fazem parte da Gangue Praça XV”. Isso significa ter uma ponte para atravessar até o outro e retornar já não sendo ilha.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Álbum das Ruas

Repórteres


Lendo Fato & Versão.


Local do Crime.


Adalberto, 5 anos depois.


Bilica.


David e Coisinha.


Rodrigo e Alessandra.


Repórteres e a Tijolada do Mosquito.


Reportagem High Tech.


Luiz Filipe Bianchinni ao final de sua entrevista.


Nilson.


Morador de rua.


Arquivo de fotos tiradas durante a vivência com moradores de rua de Florianópolis.

Meu endereço é a rua

por Luiz Carlos Padilha



“...assumindo plenamente sua inarredável condição mortal, aceitando em decorrência a angústia que só poderia ser dissimulada através da banalidade cotidiana.” Heidegger

Terça-feira 24 de novembro de 2009. Hoje, Rodrigo Cardoso Silva completa 30 anos. Por dez anos foi casado. É pai de uma menina de sete anos e há três deixou a família em Canoas, Rio Grande do Sul, para morar nas ruas. O motivo, ele não revela, mas dá uma pista: “O que os olhos não vêem o coração não sente”.

Depois da separação da mulher, resolveu cair no mundo e cultuar as ruas. Dormindo na calçada, sob um toldo de lona, em frente à garagem de uma casa fechada, na esquina da Rua Victor Meireles com a Rua General Bittencourt, no Centro de Florianópolis, Rodrigo é uma figura conhecida na área.

“O livro do mundo é a rua. As ruas são a escola do mundo. Aprendi muita coisa, muito rápido. Conheço centenas de pessoas por dia, de outros estados e até do estrangeiro. Sou carismático, trato todo mundo bem e com respeito”, diz, sorrindo e me olhando fixamente.

Nas três vezes que conversamos, pude constatar um pouco desse carisma. Alguns moradores e pessoas que trabalham em repartições, bares e restaurantes das redondezas, o chamam pelo nome, o cumprimentam e lhe pedem pequenos favores, como comprar cigarros, boletos de estacionamento, descarregar mercadorias e outros afazeres.

“Moro na rua, mas não sou vagabundo não, ‘doutor’. Aqui eu trabalho e ganho meu dinheiro sem precisar pegar o que é dos outros”. Continuamos a conversa. Descubro que Rodrigo é mais um desses jovens que saíram de casa forçados pelo conflito interior gerado pelo uso de drogas. Sobre a vida que leva, dá um sorriso tímido, demonstrando certa agitação nos gestos, como que incomodado com o que vai dizer.

“Estou na rua porque é melhor pra mim. Eu fumo crack e não quero incomodar minha família, aqui não tem pegação. Não sou viciado, sou cabeção, uso dose alta, mas quando acabou não corro atrás”, revela.

Pergunto se deseja parar com o consumo de drogas. Diz que já tentou algumas vezes, até voltou pra casa, ficou alguns dias, mas depois retornou às ruas. “Usar é muito mais barato que se tratar”, diz ele com seu jeito afetuoso e olhar calmo.

“Aqui acontece de tudo, ‘doutor’. Outro dia, teve um bacana, de madrugada, que me levou pra casa dele. Tomei banho, comi, bebi e depois deixei o cara lá, peladão, e me mandei”, conta, rindo-se.

O desafio cotidiano, porém, não é nada engraçado. Nos dias de calor, ele se lava em uma torneira pública, na avenida Hercílio Luz. Quando precisa usar banheiro, recorre a uma estrutura pública da Praça XV, ao preço de 50 centavos. O banho, uma vez por semana, é na rodoviária Rita Maria, isso quando arruma quatro reais para pagar o chuveiro. “Duro mesmo é no inverno ou quando está chovendo... As roupas ficam molhadas e faz muito frio”, confessa.

Assim como a história de Rodrigo, existem muitos outros dramas envolvendo álcool, drogas, prostituição e abandono, que acontecem por problemas de desestruturação pessoal ou familiar e acabam empurrando adolescentes, jovens e adultos para a condição de moradores de rua.

Afastados da cobrança dos familiares e absorvidos pela indiferença da sociedade, sem nenhuma proteção social, travam uma batalha diária pela sobrevivência. Mesmo que aparentemente não demonstrem, os moradores de rua levam uma vida marcada pelo sofrimento e pela vulnerabilidade física constante. Uma luta diária que exige estratégias engenhosas de sobrevivência.

A estratégia psicológica encontrada por Rodrigo é o de se anestesiar, rir e tirar onda da própria situação em que se encontra. Por quanto tempo ainda, ele não sabe, mas acredita que algum dia possa vencer o vício e então levar outro tipo de vida.

“A vida pra mim é um videogame. Pra evoluir no jogo tem que passar de fase. Ganhando essa fase, quero partir pra outra, sem uso de drogas. Vai ser difícil, mas as pessoas são aquilo que pensam que são. Os pensamentos positivos atraem forças positivas”, filosofa meu entrevistado.

QUANDO OS OUTROS VÃO PRA CASA

por Luiz Felipe Bianchinni


Sento. Espero. Pessoas andam, correm. O vento sopra rápido, as folhas se mexem. Parece que vai chover, mas não chove. O cheiro de chuva chega antes da própria chuva enquanto as luzes da cidade vão se apagando lentamente. Aos poucos os barulhos dos passos rápidos e atrasados vão diminuindo, o silêncio pouco a pouco começa a aparecer. E é nesse momento, quando a luz acaba, que começo a perceber outro universo no Centro de Florianópolis. É quando o silêncio aparece que se vê uma outra realidade, uma realidade crua, invisível e calada.

Quando a luz verde da figueira começa a ficar mais forte começo a ver pessoas que não tinha visto antes naquele lugar. Pessoas que dormem, amam, comem, bebem e fumam seus cigarros em torno da Praça XV. O centro da cidade parece outro, e quem o habita também. Na verdade, não sei se essas pessoas estavam escondidas enquanto era dia ou se o movimento e o ritmo acelerado da capital escondem-nas. Junto desse cenário de penumbra, de cheiro de chuva, cachaça e roupa molhada está o medo e o que se esconde. Ali, na noite, na sombra do que é a cidade, na sombra do que restou do dia, eu vi naquelas pessoas um pouco de mim e do que aparece em mim quando está escuro.

Procuro alguém para conversar, ando ao redor da cidade e encontro Nilson Calo Rosa, de 52 anos, que vive há 30 na rua. Pergunto se pode conversar e ele logo diz que sim e oferece seu papelão para que eu sente ali com ele, eu sento e continuo conversando. Entre um cigarro e outro, revela-se aos poucos e mostra suas contradições, seus medos, sonhos e insatisfações.
Ele diz que está na rua porque gosta, que não nasceu para viver em gaiola. Nas ruas ele se sente um passarinho solto. Fala que sempre ficou mais na rua do que em casa e desde criança já sonhava com a liberdade das ruas.

Nilson diz que acorda todos os dias às 7 da manhã pra ir trabalhar de guardador de carros na rodoviária, onde fica o dia todo. Para tomar banho usa a própria rodoviária ou uma torneira na rua mesmo. Conta que sempre tem alguém que oferece comida para os sem-teto. Muitos grupos religiosos espíritas, evangélicos ou católicos trazem alimentos.

No terceiro cigarro, ele conta sobre seus medos e sobre o que acontece na madrugada das ruas da cidade. “Já vi gente ser esfaqueada do meu lado; daí tu olhas e fazes de conta que não está olhando,” conta Nilson. Para ele, que não gosta de confusão, a melhor opção é fingir que dorme quando está em uma situação de risco.

Ao falar de experiências com drogas afirma que se tornou um usuário ainda adolescente. Foi usuário de cocaína por 20 anos, mas já parou com a droga. Hoje usa crack às vezes para dormir, pois tem muita insônia, e bebe esporadicamente também... “De vez em quando tomo uns golinhos, mas tudo é prejudicado quando bebo. Agora eu tô a quatro ou cinco dias sem beber”, conta.

Logo depois, Nilson conta que é HIV, que pegou o vírus em relações sexuais com mulheres na rua. Conta que é preocupado com a saúde, que toma o coquetel e só transa com camisinha. Diz que muita gente não chega perto dele por medo de contaminação.

“Não volto pra casa porque não é espaço pra mim. Meu lugar é na rua”, afirma Nilson. Se de um lado está o homem que se diz livre dos padrões tradicionais de modo de vida, de outro está a solidão. Quando a chuva começa a cair mais forte e romper com o silêncio da noite no centro da capital, ele se revela mais e em algumas lágrimas mostra o preço que paga por essa “opção”.

Ele conta que perdeu a esposa há 10 anos e que desde então vive nas ruas. Quer dizer, diz que já “vivia” nas ruas antes, mas depois do falecimento da mulher resolveu entregar sua vida para a estrada. Nilson diz que se arrepende dos momentos em que maltratou sua família por causa da bebida, diz que carrega consigo essa culpa.

Teve dois filhos, que hoje são casados, trabalham e que não vê há 10 anos. Conta que os filhos se esqueceram dele mas que ele os guarda no coração. Pergunto a ele se não pensa em procurar os filhos e responde que não, que não será bem recebido. Nesse momento, seca as lágrimas que se formam nos olhos: procurar os filhos parece pior do que a dor que carrega consigo. Parece não acreditar em uma reconciliação.

“Cada ano aqui corresponde a cinco”, desabafa Nilson. Ao final da conversa, revela estar cansado de tudo isso e que tem vontade de sair das ruas. A preocupação parece ser com o cotidiano, como o que vai comer no dia ou aonde dormir. Ao perguntar sobre seus planos para o futuro, disse que gostaria de comprar ou alugar uma casa onde pudesse morar.

A noção de tempo para quem vive na rua me parece ser outra. Tenho a impressão de que os moradores das ruas vivem em um outro ritmo, diferente dos que estão na correria do mundo capitalista. Não que não estejam neste mundo ou não componham nossa realidade, entretanto, percebo em seu modo de vida uma opção. O homem é produto do meio social, entretanto, parece-me que as pessoa que vivem nas ruas se opõem de certa forma aos padrões e estereótipos tradicionais. Não sei quem é mais livre, se o jornalista que deve terminar esta reportagem ou o entrevistado. O que percebo é que a penumbra da noite faz com que os dois, através de uma conversa franca, desnudem-se por alguns instantes e mostrem as verdades humanas que restam quando as luzes são apagadas e os outros vão embora.

A família “Apelido”.

por Paulo Vitor Dal Ponte

São aproximadamente 19h e preciso esperar mais uma até a chegada do ônibus e o fim da jornada de trabalho. Uma hora é tempo para muita coisa quando não se tem nada para fazer. Pensando na vida que levo, avisto uma mulher, negra, estatura média, magra. Usa uma calça que começa justa na parte superior da perna e termina larga escondendo a sandália rasteira que calça. Em cima da cintura uma camisa de malha pouco espessa, decotada, mostrando um sem volume de seios.

Fico intrigado com aquela figura. Quero conhecê-la, mas o simples oi me afronta. Disfarço e me dirijo até o carrinho de cachorro quente. Ao lado ela olha incessantemente para o pão. Devora-o com a imaginação, pois quando olha na mão, vê apenas uma pequenina cadela. Talvez sua única família, suponho.

Penso em pagar-lhe um cachorro quente, mas avisto um conglomerado de cães que a cercam aquela senhora. Talvez senhorita. Disfarço e começo a brincar com um deles:

— É o pretão, ela responde. - Pode brincar com ele, é manso.

Era exatamente o que eu queria. Uma brecha para poder quebrar o gelo e tentar saber um pouco mais sobre aquela figura. Começo perguntando o nome:

— Sou Pedrita. Você gosta de cachorros? Eu adoro!

Pedrita é moradora da Praça XV há tanto tempo que já a fez esquecer quanto. Vive das ajudas que recebe e fala em alto e bom som:

— Não roubo! Às vezes a fome bate, mas sempre tenho o que comer.

Não exito mais em pagar o cachorro quente que outrora não quis comprar. À espera da refeição, Pedrita conta que toma café e almoça. Menciona um bar, sem se lembrar do nome, que tem café da manha a R$ 1,00. À espera do lanche, continuamos a bater papo, eu perguntando e ela respondendo:

— Mas me conte...

É quando chega um tipo grande, barrigudo, parcialmente careca:

_ Pedriiiiiitaaaaaaaaaaaaa!!!

Após ter subitamente a atenção da moça, ele esfrega a face de seu polegar nos dedos indicador e médio. Parece não querer falar na minha frente o que procura. Como se eu não compreendesse o sinal que fazia:

— Pega lá com eles o dinheiro! Ordena Pedrita

— Como pegar com eles? Eles vão me matar! Eles são malucos! - retruca o jovem.

O jovem sai em disparada e dele não sobra nem o cheiro. Constrangido com a situação fico sem palavras para continuar o papo. Uma realidade nova para mim, rotina para eles. Sem saber o que falar, sou chamado pelo homem do cachorro quente com o lanche pronto. Me faltam palavras, então apenas o entrego a Pedrita, supondo que já terei que pagar o próximo, pois se ela comesse como o olhara anteriormente, não deixaria nenhum farelo cair ao chão:

— Estou com muita fome moço. Eu não sou de ter fome. Mas eu também não era de beber. Faço isso porque uso pedra. Craque não, pedra! Preciso usar! Só que depois que uso, tenho fome e vontade de comer e beber. É assim.

Olha atentamente para a calçada, retira uma minúscula pedra entre as demais e me mostra:

— A pedra que uso é mais ou menos desse tamanho ó.

Suas mãos em momento algum pegam a refeição ao mesmo tempo. Uma usa para comer a outra para acariciar seu cachorro. Magrela é o nome do animal que mais parece o bebê de Pedrita. Ela tem um filho de 12 anos, a quem chama de Juninho. Seu filho mora em Canasvieiras com a avó. Pedrita diz não se lembrar da última vez que o viu, nem da última vez que o teve nos braços. Agora tem Magrela:

— Oi, Pedrita, me dá um pedaço?

É, Silvana chegando. Segundo Pedrita, são amigas inseparáveis.

Ela mora no Monte Cristo, mas o contato íntimo que tem com Pedrita e a avidez com que devora o cachorro-quente me fazem pensar que se não mora, já morou na rua. Depois de duas bocadas, Silvana continua o trajeto.

Pergunto a Pedrita se não tentou construir outra família. É então que estende o braço e aponta para um homem, sentado a uns sete metros de distância. Ela me mostra uma ferida no ombro esquerdo e diz:

— Ele me bateu esses dias, olha isso! Não tem problema, ele pode, é meu marido! Aquele! Olha lá! Ôoooooooo Sem camisa cabeludo, venha cá!

A figura estática do homem nada se altera. Está lá, olhos entreabertos, respiração pausada, espírito em profunda meditação. Pedrita espera alguns instantes por uma resposta do homem, que mantém sua feição. Chateada por não ter detectado retorno algum, olha para o lado e solta um grito:

— Ôooooooo, tia, tais aí escondidinha, é? Vem aqui conversar com a gente!

Tia é uma senhora sorridente. Caminha morosa, com as colunas um pouco curvadas. Chega mansamente, me cumprimenta e senta ao nosso lado. Ofereço-lhe um cachorro-quente, que aceita. Pedrita faceira se põe a falar:

— Olha moço! Essa é a mãe do meu marido! É a Tia!

Como uma sogra pode tornar-se tia, penso eu. Na rua não se chama pela idade, muito menos, pela cor. Não se nomeia pelo gosto ou pela necessidade. Na rua se define um caráter, um modo de ser perante aquela minúscula sociedade paralela e ao mesmo tempo conjunta. Cada um está ali de um jeito diferente do outro. Ou querem esquecer uma realidade que já foi pior que a atual, ou apenas estão ali por força do destino ou do acaso. Nem cruel nem belo, mas real.

Pedrita não conta o motivo que a fez ir morar na Praça XV. Também não precisa falar novamente o que já disse intuitivamente. Na Praça tem de tudo, sério e risonho, fechado e tagarela, crente e ateu, feliz e triste, drogado e limpo.

Entrego o cachorro quente a Tia. Ela o encosta no colo. Já se passaram mais de uma hora e por incrível que pareça, Pedrita ainda comeu o seu lanche.

As duas coreografam a mesma cena. Com a ponta dos dedos indicadores, médio e polegar, pegam uma fatia do cachorro-quente. O transporte até a boca é lento e a degustação mais ainda. Não se preocupam em devorar o alimento e logo correr atrás do próximo. São calmas, fazem da refeição um momento prazeroso, como há muito, minha rotina alucinada não me deixa fazer.

Tia me agradece a gentileza e me deseja ter sempre mais. Ela está na rua acerca de um mês. Veio buscar seu filho, o cabeludo sem camisa. Ele é dependente químico e passa seus dias meditando na praça:

— Meu filho é minha preciosidade! - conta.

Pergunto sua idade:

— Sou mocinha! - responde ela.

Tia é devota de Igreja Evangélica, onde busca forças para retirar o filho das ruas. Ela não conta onde dorme, nem o que faz para ganhar dinheiro. Afirma apenas que não pede esmola e que Deus vai lhe mostrar o caminho certo, sempre.

— Onde a senhora mora?

— Aonde deus me mostrar.

— Você possui algum trabalho? De onde tira seu sustento?

— De onde deus me levar.

— O que você costuma comer?

— O que deus me der.

A alegria de Tia passa ternura. Ela fala, observa, muito receosa tenta adivinhar o que penso. Fala sempre sorrindo, talvez para o ouvinte tomar como brincadeira alguma verdade que ela precise contar no momento.

Pergunto por que o filho dela está ali. O sorriso cai por terra e o silêncio toma conta. Andréa acabara de terminar seu lanche e tia parece não ter forças para segurar o seu:

— Meu filho puxa drogas, moço! Eu não sou disso! Não fumo, não bebo! Mas estou feliz por estar com ele e vou conseguir tirá-lo daqui.

As drogas não chegam a amedrontá-la, mas a afrontam. É um inimigo declarado que Tia combate diariamente. Como esse inimigo não consegue atacá-la, vai em seu filho que não tem a mesma força:

— Moço, meu trabalho é fazer o bem. Quem trabalha fazendo o bem não precisa ter medo.

A partir daí, Tia se retrai. Continua sentada conosco mas não responde mais as perguntas. Se responde, é com sim ou não, pondo em todas as respostas a palavra Deus. Pergunto se teve algum outro filho? Se ainda fala com o marido? Se fez outra família na rua, ou se tem amigos nela.

O sorriso dela volta:

— A gente conversa sempre por aqui. Às vezes isso é um berreiro só. Quando ganhamos alguma coisa de pessoas boas aí sim vira uma festa.

Tia afirma não pedir dinheiro pra ninguém. Apenas agradece se alguém lhe oferece algo:

— As pessoas passam aqui e me dão dinheiro. Eu não peço, mas se me dão, não é nada ruim, né querido? Meu filho às vezes pede. Mas ele tá novo, tem 35 anos, não precisa disso.

Pedrita ri. Não acredita no que Tia acabara de falar e confidencia:

— Ele não tem 35 nada. Tem 50, 60.

Tia baixa sua cabeça e tenta esconder a face, a voz muda de entonação. Parece envergonhada. Ela é esperta, provavelmente percebeu o que eu estou pensando. Se ele tem 50 anos e é filho de Tia, ela deve ter pelo menos uns 15 anos mais. O fato de as pessoas a acharem velha a amedronta.

Outro fator que intimida o morador de rua é a hora de dormir. Pedrita tinha medo dessa hora. Quando a noite cai, o movimentar barulhento da capital é substituído pelo conversar das corujas:

— Tinha medo! Hoje não tenho mais! Além de magrela, tenho mais quatro cachorros que fazem minha segurança durante a noite.

Pergunto se a policia não os protege:

— A Polícia? Pra que de polícia quando temos os cachorros. Enquanto dormimos, eles nos guardam. Os policiais até já ameaçaram dar tiros nos nossos cachorros.

Enquanto fala, Pedrita aponta para a direita, estica os dedos indicadores e médio e colou-os, dobrou o polegar e o dedo mínimo e o com o anelar, atira:

— Pá, pá.

Nesse momento um senhor de idade avançada, calça e camisa social, cabelo, barba e bigode bem feitos, que vinha caminhando, pulou para trás em um só golpe de susto. Pedrita não titubeou:

— Oi, senhor. Me dá um dinheirinhooooooooooo. Eu tô com fome.

O senhor pouca atenção dá à moça e como alguém em extremo estado de fúria continua seu trajeto, declamando poesias em baixíssimo som. Alguém poderia até achar que saiu resmungando.

Como se esse diálogo fosse a coisa mais normal do mundo, Pedrita volta diretamente a conversa e talvez já até tivesse deletado aquele senhor de sua memória. Tenta falar algo que sua frequente tosse naquele momento não deixa. Tosse incessantemente. Para apenas quando se esquece. Pedrita tem tuberculose e HIV.

Percebendo a pausa que faço para esperar Pedrita terminar de tossir, Tia inverte papéis de jornalista e fonte e me indaga:

— Você já viu essas caras amarradas? Que coisa mais triste. Passam aqui na praça o tempo todo como um rastro de pólvora. Às vezes a mesma pessoa passa até 20 vezes por dia. Sempre correndo para o trabalho, sempre pensando nos problemas. Essas pessoas se esquecem de viver.

Ofereço mais um lanche a Tia, que aceita. Quando me levanto para pedir, entrego a vez a um moço que chegou no mesmo instante que eu. Para não deixar minhas fontes ao léu continuo batendo papo enquanto os cachorros-quentes do outro cliente são feitos. Intrigado com a demora de quase 25 minutos do meu companheiro consumidor, me sinto seduzido a contar quantos cachorros quentes ele acabara de pedir. Eram 18.

Pedrita vê minha preocupação e brinca com o rapaz:

— O moço, hein! Deve ter família grande, quanta comida você está levando!

Ela recebe um sorriso amarelo do moço que nada diz. Quando ele deixa a barraca, chega enfim a minha vez. Tia escolhe o que quer e o que não quer em seu cachorro-quente e fica esperando o balconista terminar o preparo. Apesar do que disse antes, me pede cinco reais, justificando-se na mesma quantia que anteriormente havia dado a Pedrita. Nesse momento resolvo perguntar como está me pedindo se falou que não pedia. Ela não exita na resposta e ma manda de bate pronto:

— É brincadeira, né querido. A gente gosta de brincar e o senhor me pareceu legal.

É ai que entrego seu cachorro-quente, intrigado com a sua brincadeira de dizer verdades. Tia me agradece dizendo:

— Que deus sempre lhe dê mais!

A vida na rua é uma constante conquista, tanto de espaço como de comida. É o jogo da sobrevivência. Hábitos básicos como escovar os dentes, tomar banho, refeições com horários não são rotina dessas pessoas. Pedrita toma banho ou num hotel, ou na.rodoviária. Seu banho sai em torno de cinco reais. Para comer, Tia não conta seu método, mas afirma ir sempre a um lugar diferente.

Assim os moradores da praça XV vivem, como povos nômades, de lá para cá, batalhando por sua sobrevivência. São mesmo uma grande família, que sorri, que pula que almoça e dorme junto. Eles também brigam, também discutem, mas de apelido em apelido, todos entendem o momento de cada um. Tia é tia. Sempre sorridente, sempre disposta a aconselhar. Pedrita é Pedrita, magra, frágil. Sem Camisa Cabeludo, o dono da casa, sempre meditando e concentrado. Não tem nem tempo para me conceder uma entrevista. Me contento e abro mão da fonte.

Peço para que ambas tirem uma foto. Pedrita pede três reais pela foto e Tia diz que precisa ir para casa. Pergunto novamente onde fica seu canto e ela novamente responde: “aonde deus me levar”. Afasta-se lentamente, passa pelo filho que ainda medita, para a sua frente por um bom tempo, como uma estátua. Talvez tentando conversar por telepatia. Pedrita, contente com os três reais que lhe dou me puxa pelo braço.

— Vamos moço, hoje estou feliz. Vou bater foto com minha família toda.

A moça chama seus cachorros com um só assovio, senta-se no banco da Praça 15, arreganha em sua face a felicidade do instante.

Posiciono a câmera e click, ponto final.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

RG: 1576995-0

Por Karen Koerich Gerber

A história de Nelson Isauro de Oliveira Neto, RG: 1576995-0, um intrigante comunicador, um morador da Ilha de Santa Catarina, um futuro com teto

Era uma casa muito engraçada, só tinha teto e uma parede. Era aberta para todos os passantes e visitantes, um lugar sem número do centro de Florianópolis, para ficar mais fácil: na rua Deodoro, numa marquise qualquer para alguns, lar para outros. Sem endereço, Nelson Isauro de Oliveira Neto é uma dessas pessoas que muitos passam e não vêem; não porque o julgam como um ser diferente, mas por ser igual a tantos outros que são ignorados todos os dias. No entanto, ele é um cidadão à parte, além de artesão, um ótimo comunicador, o que o torna cada vez mais visível, pois, segundo Nelson, invisíveis são os que não sabem se expressar, e ele com certeza sabe.

Com muita simpatia e sem medo Nelson me convida para entrar e é muito receptivo. Estranho como a cada poeirinha que parece invadir seu espaço é expulsa em poucos segundos. A preocupação constante com o que está a sua volta lhe dá um olhar vago, carregado de lembranças e sonhos, mas a vontade de contar a sua história é grande e por isso ele continua, pensando em cada palavra que deve ser dita e como narrar fatos tão desconexos, verdadeiros ou não, não cabe a ninguém julgar e sim conhecer a atmosfera de um morador fora dos padrões da normalidade para muitos outros moradores de Florianópolis.

Gaúcho, veio para a Ilha aos quatro anos de idade, separado dos pais, morava na barra da lagoa, trabalhava e morava por lá, até que... Essa é a primeira versão, na segunda ele veio com o pai e foi apenas separado da mãe, pessoa que ele nunca mais ouviu falar. Mas o importante é que enquanto morava aqui na Ilha, Nelson não deixou de aproveitar o tempo livre do trabalho para estudar, fez até a 8ª série no Rio Vermelho. “Abandonei o colégio no ensino médio porque os professores querem nos ensinar coisas que não são tão importantes para a vida”. Mas como é a vida... Com 17 anos ele resolveu pegar uma carona, dessas sem rumo, e foi parar no Rio de Janeiro, na Cidade Maravilhosa. Pela intensa convivência com turistas estrangeiros, aprendeu até um segundo idioma, o inglês. Por lá ficou até os 23 anos, prestou serviço militar e prefere não dizer onde morava, mas afirma que mantinha diversos romances e com a vida diferente da que levava em Florianópolis acabou parando no mundo das drogas.

Outros problemas ainda acabaram levando-o para Santos e depois o trazendo de volta. Novamente ele voltou a morar na capital de Santa Catarina. “Essa cidade me acolheu, sou muito feliz aqui, e eu nunca faria nada de mal para esse lugar. Estou afastado do tráfico de drogas”. Por isso aqui ele nunca teve problema com a polícia – não menciona se os teve ou não no Rio – mas afirma que quem tem problemas dessa ordem é porque algo de errado fez.

Quando voltou foi acolhido pela família paterna “Não agüentei as atrocidades cometidas pelo meu tio com a minha tia. Eu sou digno e essa história de livre arbítrio me deixa indignado, pois o livre arbítrio não nos dá o direito de cometer o mesmo erro diversas vezes. Eu cheguei a denunciar o meu tio, mas minha família voltou-se contra mim”. Sem peso na consciência, resolveu deixar a casa e há dois meses voltou a ser morador de rua. “A mente humana é como um papagaio, se você lê muitas coisas ruins ou vê muitas coisas ruins, acaba repetindo tudo e eu não queria nada daquilo pra mim”. O grupo no qual hoje Nelson convive é composto por três amigos. Às vezes eles se reúnem em cinco, mas é raro, cada um gosta de ter seu espaço respeitado. “Já morei na rodoviária, na Beiramar, na Agronômica, mas faz uns 20 dias que estou aqui”.

Vergonha? Medo? “Morar na rua é uma necessidade do momento. Não me sinto mal por estar aqui, não quero que os outros saibam por que eu não quero energias negativas, mas não sou um coitado, coitado é um filho de um burro e não eu, isso é só uma fase”. Para aceitar a vida que leva, faz uso de drogas, bebida e cigarros. Afirma beber socialmente, mas isso não é a realidade visível.

Diz também não ter medo, e sim receio de sofrer qualquer uma das atrocidades que vivenciou. “O bom de viver em grupo é que num dia um tem a cachaça, o outro um beck, o outro a farinha e daí nós fazemos a sopa”. Mas se há algum descontrole por parte do grupo, Nelson baixa a cabeça e reza: “Deus, me fazei compreender que todos que estão à minha volta são filhos de Deus”. Segundo ele, essa é a única forma de espantar maus pensamentos e intenções. Afirma que no geral todos são companheiros uns dos outros, mas o clima de um verdadeiro lar faz falta.

No Natal, Nelson quer estar de casa nova. Acredita que cada um tem aquilo que merece, por isso não vai demorar para que seu sonho se torne realidade. Com uma pequena reclamação sobre a falta de assistencialismo por parte das assistentes sociais, ele afirma que o povo brasileiro em geral é muito solidário. Por isso não tem medo do futuro e está fazendo com que tudo conspire a seu favor. “Eu ganho um auxílio saúde de 365 reais por mês (por ser soropositivo) e pretendo alugar um quartinho”, mas isso não é só para atender o seu desejo. “Já percebeu como estou vestido?”, estava todo de verde, inclusive mostrou um presente que ganhou no mesmo dia, um tênis da mesma cor da roupa. “Nada vai tirar a minha esperança”.

Com o cigarro na boca, Nelson mantinha o sorriso tímido e pensamentos secretos sobre o que faria depois que arranjasse um novo lugar para morar, mas naquele momento estava feliz apenas por ter sido reconhecido e contado sua história. Aos 45 anos, ele espera rever a família que deixou para trás, reconstruir a vida e voltar a ver as ruas como um local público e não um canto que tomou como seu.