sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Casos de Família

por Roger Maurício Caetano

“Esta é minha sogra”, expõe Andréia, apontando para uma senhora que observa nossa equipe de reportagem há certa distancia com cautela. “Meu marido está logo ali no coreto” diz ela sentada em uma mureta da Praça XV com um cachorrinho, que ela chama carinhosamente de coisinha, enrolando em um pano como se fosse uma criança de colo, enquanto aguarda o cachorro-quente, que oferecemos ficar pronto. Andréia chama sua sogra para se juntar a nós e a apresenta. “O nome dela é Lorita e mora conosco aqui na praça”, explica a moradora de rua.

No Brasil eles somam cerca de 1,8 milhão. Em Florianópolis, a secretária de Assistência Social diz que eles são uma média de 150. “Uma população invisível. Muitos são de fora e estão só de passagem, mas boa parte é daqui, tem família e estão na rua por opção”, declara Irma Remor Silva, coordenadora do projeto Abordagem de Rua que cadastra e dá assistência aos moradores de rua da capital.

A declaração da coordenadora vai ao encontro do que dona Lorita contou sobre sua vida. A velha senhora revelou depois de muita insistência que era da cidade de Caçador e estava ali há cerca de um mês por opção, pois queria tirar o filho David daquela vida com drogas. ”Deus tá me ajudando; tenho meu trabalho e vou alugar uma kitnete”. Discreta, ela evitou ao máximo revelar detalhes sobre sua vida, sempre desviando as respostas para coisas como “só Deus sabe meu filho”. Quando indagada sua idade, dona Lorita prefere não responder. Suas roupas surradas e seus cabelos sem pintura dão a impressão dela estar beirando os 70 anos.

Após muitas tentativas sem sucesso de tentar entrevistar dona Lorita, resolvemos saber mais com sua nora Andréia e o filho David. Andréia demonstra na aparência ter uma saúde muito debilitada. Muito magra, declara ser soropositiva e diz ter tuberculose e por esse motivo anda com uma máscara hospitalar. Informação que foi posta em dúvida pela coordenadora do projeto Abordagem de Rua revelando que muitos indigentes usam essas máscaras apenas para esmolar. Qualquer que seja o fato, Andréia obviamente tem uma saúde muito debilitada e diz que contraiu o HIV fazendo programas para sustentar seu vício em crack. Durante a entrevista ela pediu dinheiro várias vezes para comprar a droga. Isso facilitou que pudéssemos se aproximar mais dela e sermos apresentados a David.

David, o marido de Andréia é uma figura caricata entre os moradores de rua, sempre acompanhado de cachorros, usa dreads e tem um longo cavanhaque. Encontramos ele andando de skate na Praça XV, numero em algarismo romano que ele traz tatuado no peito, e o identifica como um morador da praça. David fala que é viciado em crack e diz que está naquela vida porque foi rejeitado por sua mãe quando criança em detrimento de seus outros irmãos.

No segundo dia quando voltamos à praça, descobrimos que Andréia havia sido presa na noite anterior por ter quebrado um vaso em uma discussão com David. Ele diz que não é atendido na delegacia e nos pede para averiguarmos notícias dela. Lá descobrimos que foi transferida para a carceragem feminina da Agronômica. Em uma tentativa de fazermos contato com a direção do presídio, o funcionário que atendeu ao telefone confirma que Andréia está presa no local, mas não diz estár ciente de que ela é soropositiva.

No terceiro dia em que voltamos a falar com David, o encontramos bêbado com uma garrafa de cachaça nas mãos. “Eu bebo para conter a fissura do crack”, explica ele. Eu dou as notícias sobre Andréia, mas ele parece não dar muita importância e apenas quer ficar deitado no coreto da Praça XV com os cachorros. Mais tarde ele diz q vai trabalhar e pouco tempo depois volta com algumas moedas para então sair novamente e retornar com um pouco de crack que vai fumar ali mesmo. Manter uma conversa com ele é difícil e resolvo ir embora.

No quarto e último dia encontro David deitado no mesmo lugar onde o vi pela última vez. Ele está dormindo e quando acordado parece não querer conversar. Perguntamos por sua mãe e ele revela que brigaram. Pede para conversarmos com ela longe dali. Quando a encontramos, ela diz que tem uma “novidade” para nos contar. Para não criar caso tentamos evitar que vá até o coreto onde David está, mas é tudo em vão, pois ela insiste para ir até lá para contar a “novidade”.

Dona Lorita senta em um dos banquinhos e vagarosamente começa a contar a tal novidade. David está deitado há uns cinco metros dali ouvindo nossa conversa.
-Pois é meu filho, eu tinha uns documentos perdidos.
-Que documentos? Pergunto eu.
-Da aposentadoria, diz sorrindo.
-A senhora vai se aposentar?
-Vou, finalmente. Deus sempre ajuda a gente!
-Vai alugar a kitnete?
-Não, vou voltar para minha cidade.
-Ameemmmmmm! Grita David se retirando dali. Com desprezo.

Dona Lorita explica a partir de então que não vê mais motivos para ficar ali, já que David não quer largar aquela vida de drogas e violência, “eles só sabem fumar drogas e baterem uns nos outros com o skate”.

Quando pergunto a David sobre a saída de sua mãe, ele fala com um tom de voz magoado e diz: “Ela estava até aqui agora porque precisava de mim. Assim que saiu a aposentadoria, me deixou”.

“Queria ser rico, para ajudar todo mundo”

por Laís Campos Moser

Eduardo, morador de rua há 15 anos, fala das dificuldades de
sua situação e conta seus sonhos e ambições.

Encontrei Eduardo no centro da cidade, ao anoitecer, em baixo de uma grande marquise, em um local pelo qual costumava passar sempre. Nunca o havia visto. Se alguma vez o vi, nunca realmente o enxerguei. Como seria possível? Já que agora parece ser tão difícil esquecê-lo. “Queria ser rico, para ajudar todo mundo”. Pelo pouco que conheci de Eduardo, 36 anos, morador de rua de Florianópolis, talvez essa seja a frase que melhor o define.

Enquanto diversos moradores de rua passam de um lado para o outro, recolhendo papelões deixados pelas lojas nas calçadas, e ajeitando-os entre o chão e a parede do prédio comercial, converso com Eduardo. Estava falando com um morador de rua, Carlos, quando ele chamou Eduardo para conversar comigo, se ausentando. Começamos nosso diálogo, ou melhor, nosso monólogo, pois ele tinha muito a dizer, e eu, muito a escutar.

Parecia não querer parar de falar. Emendava um tema em outro, repetia os mesmos assuntos; eu tinha que estar atenta às pausas de sua respiração para conseguir formular-lhe algumas perguntas. Eduardo é de Caçador, está na rua há 15 anos, e hoje vive na companhia de quatro amigos: “somos andarilhos”, define o grupo.

Estudou até metade do ensino médio e hoje trabalha com pulseiras e chaveiros. “Pintura e letreiro. A única coisa que gosto de fazer é isso”, chega à conclusão. Seu orçamento é complementado por um dinheiro que recebe do governo, devido a um pino que possui na perna direita. Pergunto sobre como é morar nas ruas, já imaginando a resposta. Mas a verdade é que embora Eduardo me responda, e se todos os moradores de rua do mundo também o fizessem, creio que jamais saberia por completo. “É difícil. Para comer você tem que mendigar um prato de comida numa lanchonete. E todo mundo chama a gente de vadio, vagabundo. Roubar a gente não rouba. E quando a gente vai pedir um dinheiro, não dão (...). Pela educação que a gente tem, a gente já pediu ajuda da prefeitura, mas eles não dão. Eu trabalho, ganho meu sustento, faço brincos, chaveiros. Mas queríamos um apoio para sair dessa vida. De repente você passa calor, de repente frio, de repente pega chuva. Como mal. Essa vida é triste”.

Durante nossas quase duas horas de conversa, sobre o que mais Eduardo fala é de seu vício no álcool – e de sua vontade em vencê-lo. “Nunca fui ladrão. Não cheiro, não uso drogas. A única é a cachaça. Sou dependente do vício do álcool. Se eu parar direto, me dá uma convulsão”. Eduardo foi ao médico, para tratar seu vício. Quem pagou a consulta foi sua mulher, de 60 anos, que mora em Porto Alegre, com o filho deles, Lucas, de seis. Com a consulta médica, aprendeu que tem que parar aos poucos. “Se você toma um litro, tome meio e vai diminuindo. Quando você ver, você parou. Vai da consciência”, afirmou. Sua mulher, de Porto Alegre, veio lhe buscar, mas impôs-lhe uma condição: que abandonasse o álcool. “Eu vou fazer de tudo, eu vou deixar a cachaça. Nem que eu sofra, mas eu vou deixar. Eu amo ela”. Eduardo tira sua carteira do bolso e me mostra, quase que com devoção, uma foto três por quatro, preta e branca, de sua mulher. “Ela tem dinheiro, pagou uma consulta pra mim”. No dia seguinte ele teria uma consulta de dentista, paga também por ela, para consertar um dente semi quebrado.

A todo instante Eduardo volta a falar de seu vício. Nessas horas, olha fixamente para o horizonte e afirma que conseguirá deixar a bebida. “A partir de sábado não vou colocar mais um gole de álcool na boca. Eu vou vencer e vou ser feliz. É só eu querer. A sua cabeça é o seu mestre. Se você não tiver inteligência e humildade, você não consegue nada. Faz 12 anos que parei de fumar. Compro para eles, mas não fumo”. Eduardo tira uma carteira de cigarro do bolso, me mostra, e volta a guardá-la. Em outro momento de nossa conversa, um morador de rua veio lhe pedir cigarro. Ele, gentilmente, tirou um da carteira, e deu ao que pedia. Voltou a guardá-la.

Em dado momento da conversa, Eduardo me fala: “Queria ser rico, para ajudar todo mundo. Queria comprar um barracão para botar todo mundo. Mas cada um que se vire, trabalhe, procure sua comida. Nem o prefeito que é prefeito faz isso”. Confesso que antes de me encontrar com Eduardo, estava com receio de me deparar com a agressividade. Mas tudo o que encontrei foi confiança, educação e sinceridade. Ele me conta sobre o que costumam falar dele: “Eduardo, você dom pra ser um padre, um pastor. Não tem ninguém que fale mal de você, você ajuda todo mundo”. Ele olha para um morador de rua, que está bêbado, vestido com roupas velhas, deitado sobre um papelão, ao nosso lado, e desabafa: “Se não é eu cuidar dele, fazer ele tomar um remédio... pesa pra mim, porque é sempre nas minhas costas”.

Conta-me de uma conversa que teve com o Padre Pedro Keller:
- Eu tenho a certeza que um dia você vai estar no altar da minha Igreja.
- Hoje o senhor conversa com Ele. Quem sabe amanhã, eu converse com Ele.

Em determinado momento da conversa, uma moradora de rua, Geni, interrompe nossa conversa, com uma faca na mão, pedindo que Eduardo lhe ajude com algo. Ele me apresenta a mulher, ela me responde com um sorriso simpático e cansado. Pergunto se quer ir ajudá-la. Ele continua a conversa. Diz-me que tem data marcada para sair das ruas. Era terça-feira e, naquele domingo próximo, se mudaria para uma casa alugada, no Estreito. “Domingo vamos alugar uma casa. Vou sair dessa vida; só está dando desgraça pra gente. A prefeitura só quer colocar a gente debaixo do esgoto. Ganho um dinheiro porque tenho pino na perna, por isso tô alugando uma casa”. Sobre Geni, comenta com zelo: “Não vou deixar ela na mão Desculpe a palavra, mas ela não é vagabunda. É uma mulher digna, respeitada. Eu que tirei ela da droga (crack). E eu gosto dela. Eu vou tirar do meu bolso e pagar para ela a casa”.

Eduardo me olha fixamente e afirma gesticulando com as mãos: “Sou um ser humano, você é um ser humano, ela é um ser humano. A voz de você não é sua, é de Deus. Eu já vi nos teus olhos”. Me emociono, ele também. Retira de seu pulso uma pulseira de pedra, cinza escura, feita por ele, e coloca no meu. Pergunto qual seu maior sonho: “Deixar o meu vício e voltar pra minha mulher e meu filho”.

Na semana seguinte voltei ao mesmo local. Eduardo não estava mais lá. Fiquei observando outros colegas conversarem com alguns moradores de rua que ali moram. O movimento na rua era pequeno, pois já eram quase oito da noite. Mesmo assim, passavam algumas pessoas por nós, tentando esconder a curiosidade e o espanto sobre o que fazíamos. Lançavam olhares. Mas tenho quase certeza de que só olhavam porque estávamos ali, falando com eles. E somente por isso, naquele momento, aqueles moradores de rua foram vistos, saindo de sua constante invisibilidade.

Interligados

Por Mariana Hoffmann

Mariana entrevista Vaudelírio

“Ando de um lado para o outro, de trás para frente, de frente para trás
De um lado ou de outro, tanto faz...
Apenas ando, pois nem mesmo sei por qual caminho andarei e nem se algum dia chegarei
Se nem mesmo eu chegar, feliz vou estar
Minha vida não tem certezas, mas qual vida tem ou terá?”

Conheci um jovem de 24 anos chamado Valdelírio. Sentados em um banco da Praça XV ele começou a contar toda a sua vida, por longas horas durante três dias a nossa conversa foi se estendendo e fui me envolvendo com suas histórias. Conheci os seus amigos Daniel, Andréia, Davi, Laurita e Jeferson, e aos poucos fui adentrando em suas vidas, mesmo que por alguns instantes.

Não tinha tempo feio que me fizesse sair dali; os assuntos eram envolventes e a vida daquele jovem e dos seus amigos era simplesmente uma incógnita resolvida, uma incerteza certa, um vazio cheio. O que seria o centro da cidade para nós, lugar de compras, correrias do dia-a-dia para eles é um “lar”, uma casa livre e aberta e ao mesmo tempo acolhedora e protetora. Os bancos que enxergamos como acentos são para eles uma cama, um escritório. Todas essas pessoas que conheci são moradores das ruas de Florianópolis, apesar de muitos virem de outros lugares.

Jeferson, um dos moradores da praça, contou que foi abandonado pela mãe na Praça XV, esperando um sorvete que nunca chegou. Já Daniel conta que faltava alimento para todos da família, então optou em sair para sobrar espaço e comida para os seus irmãos e pais.

Olhares perdidos e ao mesmo tempo desconfiados demonstram a insegurança e o medo deles diante de nós, imaginando se seríamos policiais ou jornalistas mal intencionados. Porém, mostram coragem e força em conviver diariamente com as dificuldades das ruas e mesmo assim conseguem manter o bom humor e seguir em frente. Muitos deles usam habitualmente drogas e vivem uma não lucidez contínua. Sua vida sexual é cercada de liberdade e descompromissos. Muitos deles são portadores de HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis. Unidos como uma família eles protegem uns aos outros e se tratam com muito respeito e carinho. Também têm uma relação muito afetuosa com os animais: um cuida e protege o outro, e todos os cachorros têm nomes e são tratados com carinho e respeito.

Valdelírio me contou sobre o seu passado, a sua infância difícil. Aos oito anos saiu de casa para tentar a vida sozinho nas ruas, para deixar mais comida para os irmãos que passavam necessidade em casa. Contou que já fez de tudo, desde engraxar sapatos até prostituição. E com certo constrangimento me chamou em um canto e sussurrou baixinho, dizendo que já matou uma pessoa. Perguntei sobre essa experiência, e ele como em um ato de desabafo foi descrevendo o assassinato, detalhe por detalhe. Perguntei se sentia remorso e o motivo do assassinato e calmamente respondia que não, porque o Padre que matou mantinha relações sexuais com ele e outras pessoas, e na frente da sociedade era um padre respeitadíssimo.

No outro dia que em que eu me encontrei com o Valdelírio ele me confessou que sentiu remorso sim e não quis me dizer, mas que não pode fazer mais nada, só cumprir a sua pena. Ele comentou também as dificuldades de viver nas ruas, que incluem abrigo em dias de frio intenso, o preconceito das pessoas, a relação da polícia com eles, as possíveis brigas por território ou desavenças.

Além das dificuldades ele comentou também os pontos positivos da vida na rua, como por exemplo, a vida sem rotina, as viagens que pode fazer, as amizades, liberdade, e poder de decidir quando vai trabalhar e com o quê. Valdelírio comentou também sobre um livro que sonha em escrever, um livro sobre os prejuízos que as drogas causam na vida das pessoas. Nesse relato, quer utilizar as suas próprias experiências para alertar as pessoas que pensam ou vivem nessa rotina que já vivenciou.

Franzindo a testa e demonstrando constrangimento, fala que não deveria ter matado o Padre, e que vê muitas vezes a imagem dele nas paredes do quarto antes de dormir. Depois ele deixa escapar uma lágrima e pergunta se a vida dele tem solução, se ele não está condenado ao sofrimento por ter cometido esse erro. Com satisfação e alegria continuamos a conversa. Eu poderia ficar por longos anos conversando e aprendendo tudo que eles têm para nos ensinar, além de vivenciar, mesmo que na imaginação, tudo o que eles nos contam, e ao mesmo tempo distinguir a nossa realidade com a deles, que muitas vezes se chocam. Preocupado com o cheiro, ele pede para eu manter a distância e comenta que não toma banho faz alguns meses, eu disse que não me importava e cheguei mais próxima dele.

No meio da conversa apareceram no “escritório” da praça XV os amigos de Valdelírio. Toda vez que isso acontecia novas aventuras entravam em cena. Na maioria das vezes eu não estava sozinha, mas acompanhada de colegas presenciando aquela situação, aquele momento único, singular e inimaginável. Tudo acontecia inesperadamente, e assim sendo, os amigos de Valdelírio pediram para nós irmos até a delegacia que um dos seus amigos tinha sido preso e precisava telefonar para o seu tio que é advogado. No começo hesitamos e ficamos em silêncio por alguns segundos, até que um dos colegas, chamado Roger, levantou e chamou o grupo para agir e ir até lá. Fomos até a delegacia junto com o morador de rua Daniel.

Prestes a chegar escutamos um assobio, e logo em seguida Daniel assobiou também. Todos do grupo nesse instante se olharam, e apenas com o olhar pudemos entender o significado do assobio deles. Em seguida conversamos com o Jeferson que estava detido na delegacia do Centro, e quando chegamos ele estava ofegante, desconfiado, confuso e sem lucidez, tentando conversar com as pessoas do nosso grupo e o seu amigo Daniel. Falando apressadamente Daniel quase gritava para Jeferson que éramos jornalistas. Assim que Jeferson captou a mensagem do seu amigo começou a falar da polícia e pediu para anotarmos a placa da viatura que o levou, pois os PMs costumavam bater nos moradores de rua, segundo eles. Depois de toda essa confusão, conseguimos o telefone do advogado e passamos para os seus amigos na praça XV.

No penúltimo dia que estive na praça XV chovia muito e nem percebi o frio que fazia. Minha mente estava voltada somente para eles. Isso me fez pensar se estão sempre no centro da cidade, onde moram, e nós passamos também boa parte da nossa vida cruzando com eles, mesmo sem enxergá-los. De alguma forma fizemos parte da vida deles e eles da nossa. Estamos interligados com tudo que existe, mas ao mesmo tempo às vezes parecemos tão desligados.

Pude perceber que são tão parecidos conosco em todos os aspectos, a diferença é que buscam em caminhos diferentes objetivos parecidos com os nossos, como “felicidade, companheirismo, liberdade, alegria e um lar”, como descreve Valdelírio. Caminhos diferentes e ao mesmo tempo parecidos e entrecruzados.

Valdelírio disse que poderia muito bem ter feito uma faculdade, ter tido sucesso no trabalho, e essas coisas “que vocês vivem”, mas optou por ter liberdade, viver beirando a margem da sociedade, em busca de liberdade e conforto emocional em meio ao caos.

Prometi que mandaria para Valdelírio uma cópia das nossas conversas que eu gravei, ele pediu urgência, pois avisou que seria preso na semana seguinte pelo crime do Padre e que estava sendo ameaçado de morte, e se tivesse a fita poderia distribuir para que todos soubessem desse risco e talvez alguém fizesse algo para ajudá-lo. No fim das nossas conversas eu já estava fazendo parte da vida de Valdelírio, e ele da minha, assim como todas as pessoas do mundo fazem parte uma da vida das outras.

Somos todos interligados. Tudo é fruto de uma ligação e essa ligação é a fonte de vida universal. Ele escreveu em um pedaço de papel o seu telefone e me entregou com as mãos trêmulas e suando e com uma voz firme me pediu novamente: “Por favor mande essa fita para esse endereço; isso é importante, tem relação com a minha vida”. A partir daquele momento percebi a confiança mútua que desenvolvemos. Com um olhar de abandono ele acena. De longe vejo-o caminhar cabisbaixo e aparentemente triste.

A realidade das ruas

por Vanessa Bastos

Vanessa, Mariana, Raquell, Daniel e David

Quem passa pela Praça XV talvez nem note – ou não queira notar, que o lugar se tornou a casa para pessoas que não têm onde morar. Mas isso só acontece com quem ignora a realidade em que vivemos em Florianópolis e até mesmo no Brasil. Mas fiquemos somente com os moradores de rua da capital catarinense que, por si só, já podem dar uma lição de desapego ao preconceito, se nos permitimos a isso.

Se alguém se dispuser a ir até a Praça XV, poderá conversar com pessoas como David, Daniel, Déia, Jeferson, Valdelírio, dona Lorita e muitos outros que passam a fazer parte dessa família, como eles se definem. Eu, particularmente, tive o prazer de conhecê-los, aprender com eles coisas que talvez eu nunca aprenda em outro lugar e que com toda a certeza serão úteis ao longo da vida que me espera. Sabe aqueles ditados populares: “A primeira impressão é a que fica” e “Quem vê cara não vê coração”? Então, são apenas frases que alguém inventou para qualquer outra coisa, menos para exemplificar a realidade dos moradores de rua da Praça XV. Pois o conhecimento que cada um carrega dentro de si, não está estampado no rosto, nas roupas, onde vive ou em qualquer outro lugar. Ele está sim, em nosso coração.

E se o ser humano estiver em busca de valores, seja de qual gênero forem, familiares, pessoais etc., há uma receita – receita, não que isso é muito mais que um bolo, é uma lição, infalível. Tente parar um dia, desprendido de todo valor material e qualquer outro que possa lhe fazer “mal” durante essa experiência. Feito isso, vá até essas pessoas e dedique parte do seu tempo a conversar com elas, trocar vivências e o mais importante, antes mesmo de entrar nesse encontro, esteja aberto para sair dele transformado.

Ah, claro, não pense que possa comprá-los com comida ou outras necessidades. Eles carecem dessas coisas sim, mas sua dignidade é algo que não se compra. E uma boa conversa, sem intenção de prejudicar às vezes vale muito mais do que algum bem. Pois não só alimenta a cabeça, aquece a alma, como os faz ver – por mais que já tenham consciência disso, que são gente, simplesmente gente.

Não é porque moram na Praça XV que não têm direitos e deveres. Eles os têm e sabem muito bem quais são. Até porque, para viverem como vivem têm que saber seus direitos e deveres na ponta da língua. Principalmente quando acontece algo relacionado à polícia. A família da XV é muito unida e entre eles, um está para o que o outro precisar, como para se defenderem, por exemplo. Como eles dizem, são muito mais próximos do que com alguns parentes de sangue. Três deles, por exemplo, para mostrar essa “irmandade” têm o símbolo da XV tatuados.

Enfim, todos deveriam passar por essa experiência maravilhosa que me foi proporcionada. Porque saio dali não só com informações para utilizar em prol da minha profissão, mas com um gigantesco aumento na minha bagagem pessoal de mão. Respeito é bom e todo mundo gosta, independentemente da condição em que se encontra.

Relato de um ser que vaga pelas ruas

por Jenniffer Viana

Marcada pelo sofrimento e pela vulnerabilidade física constante, a vida dos moradores de rua se faz uma luta diária em busca da sobrevivência e da resistência

Era tarde de terça-feira. A idéia de experimentar, por algumas horas, a vida dos moradores de rua de Florianópolis me animou no início. Os dias passaram e o frio na barriga aumentou, pensei que não seria tão fácil uma aproximação. O que eles devem pensar de nós que vamos até eles simplesmente para vasculhar suas vidas?

Enfim chegou o dia! Eu acordei nervosa, não sei o que encontraria pela frente. As horas passaram e enfim, me vi no centro de Florianópolis pronta para dialogar com os moradores de rua.

No começo pensei que iria encontrar pessoas infelizes com a vida que levam. No entanto, muitas se sentem felizes por viverem livre longe da vida regrada que nós, os com teto, levamos.

Era fim de tarde, aos poucos se percebe que realmente morre uma Florianópolis agitada, perturbada enquanto nasce uma cidade lúdica cheia de pessoas que andam pela cidade com histórias marcantes para contar.

Aos poucos me aproximo, junto com minhas colegas de classe, de um pequeno grupo de moradores de rua que estava no Coreto do Largo da Alfândega. Estavam jogando conversa fora, rindo de si mesmos e tomando “água que passarinho não bebe”, é assim que eles intitulam a tão famosa cachaça.

Sentado em um canto um homem que usava boné, camiseta larga, algumas bijuterias e um fone de ouvido, me chamou atenção pelo modo como se comportava diante dos outros. Foi logo perguntando o que queríamos. Aos poucos o diálogo que intitulo de desconfiado foi sendo entabulado. O pseudônimo dele é Curitiba, isso porque vem da capital do estado do Paraná mesmo. Tem 42 anos e vive em Florianópolis há 10. Um homem aparentemente comum, sua aparência não amedrontava, mas suas palavras aterrorizavam.

Curitiba diz ser um homem culto que fala espanhol. Morou na Argentina por três anos, passou pelo Uruguai além de Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Diz ser o dono do bairro de Canasvieiras na capital, as pessoas para permanecer no lugar têm que lhe pedir permissão. Pergunto no que trabalha e não me responde. Mas aos poucos, em suas próprias palavras, está implícito qual era seu ofício. Pergunto a ele por que veio a Florianópolis. Nesse momento me disse que saiu de Curitiba porque lá está morto, assim como no Rio Grande do Sul. ‘Curitiba’ tem dois atestados de óbito. Usando suas próprias palavras, repito. “A vida me levou a esse caminho”.

Enquanto a entrevista/bate–papo acontece a cidade escurece, algumas pessoas se aglomeram nos arredores, e o nervosismo aumenta a cada minuto que passa. Já estou dispersa do que ‘Curitiba’ fala, estou mais atenta na movimentação que acontece ao redor. Uma coisa em especial chamou atenção. ‘Curitiba’ mostra as diferenças de quem escolhe as ruas para morar. Existem três tipos de moradores de ruas, os malandros, os marginais e os bandidos. Ele se classifica como malandro porque diz fazer apenas sua parte, e não faz mal à sociedade. Suas palavras são controversas afinal ‘Curitiba’ já matou, roubou, e já foi preso. “Eu não fico por muito tempo, fantasma não fica preso, esqueceu que eu tô morto.”

Apesar de tudo que escuto, do relato da vida de um homem com uma história tão marcante, há uma justificativa. As pessoas são o que são em vista da vida que levam ou que levaram. Curitiba não conheceu o pai, tem uma relação conflitante com sua mãe, sua esposa está presa por latrocínio - roubo seguido de morte – sua filha mais nova, com apenas seis meses, está em posse da Justiça, tem um filho morando com sua mãe no qual não mantém contato, e dois filhos no Rio Grande do Sul que ele nem sabe se estão vivos.

Essa história cheia de conflitos e episódios trágicos marcou muito. O mundo que está escondido dos nossos olhares nas ruas de Florianópolis é muito distinto do que imaginamos, mas a condição de habitante das ruas oferece a possibilidade de um olhar único, crítico e pensante sobre o cotidiano.

“Florianópolis e Joinville estão entre as cidades do país como maior número de pessoas em situação de rua, em relação à população total. A pesquisa inédita é do Ministério de Desenvolvimento Social (MDS), em parceria com a Unesco. No levantamento, Florianópolis foi a 7ª e Joinville a 20ª. O levantamento avaliou 71 cidades brasileiras e municípios com população superior a 300 mil habitantes, em outubro de 2007.”

Fonte: Diario Catarinense

Três Impressões de Ruas Frias

por Thomaz L. Alves

I


Praça XV.
O desenho do piso parecia uma multidão.
O desenho do piso mudava seu padrão conforma caminhava-se sobre ele.
O desenho do piso era mutante.
Sobre ele, havia árvores. Enormes, pesadas, antigas.
Elas faziam o ar circular, tornando o vento fresco em noite de primavera.
Também havia outras coisas na praça.
Bancos, namorados, pombos. Cheiro de cachorro molhado e mijo.
Um amontoado de pedras, bancos e plantas. Como um anfiteatro ao ar livre.
Ali, sentados com a maior naturalidade do mundo, estavam quatro deles. Os amigos da Praça XV.
Moradores de rua. Sem teto. Mendigos. Vagabundos.
Pessoas.
Todos os quatro, cada qual por seu próprio motivo, moram na rua.
Pessoas que mudaram. Transubstanciou sua vida para algo mais duro.
Viviam uma nova vida agora. Uma vida sobre os desenhos do piso da Praça XV.
Eles, assim como os padrões do piso sobre o qual dormiam, eram mutantes.
A vida imita os padrões.
Tinham um padrão marcado nos corpos.
Era um símbolo. O símbolo da união familiar.
Todos cuidavam de todos.
Uma família que levava o nome de onde viviam tatuado no braço.
Praça XV.

II

Dos quatro que moravam sobre aquele teto feito de estrelas e copas de árvores, a que mais se destacava era Andréia.
Isso se devia ao seu porte físico. Diferente dos demais.
Era frágil.
Corpo extremamente magro, escondido sob roupas pretas e brancas. Cabelos desgrenhados.
Andréia portava em sua boca uma máscara branca. Cirúrgica.
A mulher sofria de Tuberculose. Tinha AIDS também.
Mas gostava de comer cachorro quente.
Falava em corrupção.
Saia pelas ruas para corromper as pessoas.
Era o que ela dizia.
Gíria. Era isso.
Corromper as pessoas, ou seja, pedir dinheiro.
Não necessariamente para comer. Por isso corrompia.
Era para drogas.
O Crack.
Uma pedra por dia.
Sofria uma morte por dia.
Em seu colo, trazia um cão. Era seu “neném”.
Chamava-se coisinha.

O segundo dos quatro era Daniel.
Grande. Camiseta regata. Boné na cabeça.
Era cardíaco. Levava as marcas de cirurgia estampadas em seu peito.
Desconfiava de todos. Todos eram “P2”
Polícia Civil.
Deve ter tido muitos problemas com ela.
Nunca falava dela.
Também nunca falava de si mesmo.
Isso entrava no psicológico. Não era bom.
É o que dizia, enquanto olhava para o céu.
Não sei como o acaso o trouxe as ruas.
Ele era um homem acostumado a manter os pés firmes em sua Terra.
Sua casa.
Á rua nunca havia exercido nenhum fascínio sobre sua pessoa.
Na verdade, o que o encantava de fato era o céu. Mais especificamente, a Lua, que não deixa de ser outra Terra.
Outra casa.
Alguém lhe disse que é sempre noite na Lua.
Lançou-se a rua.

O Terceiro a se notar era David.
David.
Da língua inglesa.
Variante de Davi.
Não se pronuncia davídi. Nem deividi
É Davi.
Foi assim que ele se apresentou.
Davi.
Morador de rua. Sem teto. Mendigo. Vagabundo.
Pode usar a expressão que desejar.
Ele mora na rua. É fato. Ele não nega.
Davi não nega.
Na verdade o nome não vem da língua inglesa. A origem é Hebraica.
O amado.
É o que significa.
Significa outras coisas também.
Segundo o Dicionário de Nome e Símbolos Chevalier:
“Muito atencioso, e apegado à família, possui um senso protetor muito forte. É o tipo de pessoa que gosta de se sentir útil e necessário. Chega a assumir mais responsabilidades do que realmente pode suportar. Não costuma voltar atrás em suas palavras. Muito ocupado, raramente se permite algumas horas livres para o lazer. Mas deve tomar cuidado em não se tornar dependente ou infantil ao extremo.”
Chevalier tinha razão.
Assim era David. Ao menos, foi a impressão que passou.
Era o líder nato dentre os quatro.
Na realidade. Cuidava de orientar a todos ali.
Cuidava de Andréia, a quem chamava de fininho. Era sua mulher.
Também usava drogas.
Esse foi o motivo de ir para as ruas.
David era formado em veterinária.
Era o que ele contava.
Teve uma época em que foi um sujeito muito violento.
Não era mais. Mudou.
A rua o deixou mais sereno.
Mas das crises de abstinência não se livrava.
Seus dias são batalhas travadas com uma parte de si mesmo.
Sua tentativa de tentar controlar e minimizar o efeito da droga sobre si mesmo.
Mas nem sempre funcionava.
Sempre chega como um flash.
Inesperadamente. Apenas mais obscuro, abstrato.
Tremedeiras rápidas, intensas.
As mãos tremem.
Tudo se mistura e tudo se confunde.
Colapsos.
Somente a droga cura.
David só tem 36 anos.

Por ultimo, o quarto integrante da família.
Dona Loreta. 56 anos.
Foi o que David disse.
Ele era seu filho.
Loreta dizia que a idade não importava. A cabeça sim. O bom coração também.
Ela não gostava de dizer a idade. Parecia ter bem mais idade do que realmente tinha.
Não gostava de outras coisas além da idade.
De fotos, por exemplo. Nem de falar.
Um pouco de timidez natural. Um pouco de vergonha por sua situação.
Ela também não se importava muito consigo mesma. O coração era maior.
Suas roupas eram sujas e manchadas. Cheiravam a fezes.
Mas gostava de cachorro quente. Igual a Andréia.
Para elas, cachorro quente tinha gosto de quero mais.
Dona Loreta tinha uma história peculiar.
Possuía sua própria casinha em Curitibanos.
Interior do estado de Santa Catarina.
Era longe.
Seu marido era agricultor.
Ela também deveria ser. Não confirmava isso.
Largou tudo e foi atrás do filho quando este rumou para a rua.
Fugiu para a rua, melhor dizendo.
Agora ali está.
Reclama que o filho não se importou com a família de sangue quando foi para a rua.
Reclama que ele se importa com a mulher.
Andréia.
Reclama que ele se importa com o amigo.
Daniel.
Mas não se importa com ela. Com a idade dela.
Não se importa com o seu amor de mãe.
Sua única saída é a fé.
É a crença.
A crença em dias melhores. A crença em salvar seu filho.
David.
O Amado.


III


A estrada.
A estrada é o caminho onde só as hienas se arrastam entre cinzas e poeiras.
A estrada é o caminho percorrido para se chegar até a realidade.
A realidade são as ruas.
Quando se caminha pelas ruas, não há hienas.
Existem os perdidos.
Aqueles que mesmo cercados pela multidão estão invisíveis.
Percorrem as ruas da cidade como se fossem estradas desertas. Aqueles que farejam com seus focinhos entre a poeira e a desolação.
Os miseráveis parecem estar em outro tempo, vivendo uma espécie de calamidade pós-apocalíptica.
Imagino que esses homens, mulheres e hienas vivem no futuro e é para lá que vão todos os que percorrem as ruas.
Ao menos, neste futuro, existem as famílias.
Para cuidar.
Existe o amado.

O Senhor das Histórias



Por Douglas Bianchini

Minha casa não tem paredes, meu teto é feito de papelão, a luz que ilumina minhas noites vem do poste bem aqui em frente. Sou um morador de rua. Sou mais um desses tantos outros humanos que vivem nas ruas. Estou aqui por que optei por estar. Meu endereço, se é que assim posso falar, é uma das ruas mais conhecidas de Florianópolis. Moro, ou melhor, durmo, quando consigo, debaixo de uma marquise na Rua Deodoro. Quase todos os dias venho para cá, pois como costumo andar pela cidade. De vez em quando me empolgo e vou longe. Aí durmo por lá mesmo e no outro dia volto.

Já faz uns doze anos que vagueio pelas ruas da linda Florianópolis de outrora, eu a vi crescer, modificar-se e, acima de tudo, e pra todas as dúvidas mudar pra pior. Tenho saudades do tempo em que o mar batia no Mercado Público, os barcos vinham de todos os lugares até aqui trazer peixes, do tempo em que passava carro na Hercílio Luz, que as pessoas desciam de seus prédios na Beira-Mar e sentavam-se na areia pra ver o pôr-do-sol.


Meu caminho, traço como posso, estou e assim sou feliz morando na rua, não posso reclamar, escolhi viver assim e até acho que não consigo mais viver sem essa liberdade. Você sabe o que é? Do muito de tudo um pouco que conheço, liberdade quer dizer ousadia, coragem, franqueza e demasiada familiaridade. Gosto da vida que levo, por mais que de vez em quando ela me dê um susto. Hoje aprendi a viver sem reclamar, se sou soropositivo é por que Deus quis assim. Ele não dá asas pra quem não sabe voar, ou uma cruz mais pesada do que a pessoa consiga carregar. Ainda não morri por causa disso. E nem vou. Tomo os remédios, que consigo com as assistentes sociais. Acho que vou morrer por causa do cigarro. Tem um? Obrigado! Apenas sigo meu caminho.

Eu peço a Deus todos os dias que proteja todos nós antes de me deitar, não sou egoísta, tenho que pedir por todos. O que não me falta é fé. Todos aqui são como eu, além do pedaço de papelão que durmo em cima não tenho nada, assim como os outros. Eles são como eu, por opção ou não, se tinham ou não família, casa, carro ou dinheiro, são humanos que hoje vivem nas ruas. Eles são meus amigos, dividem muitas vezes o pouco que têm, suas histórias, e por isso sou grato a eles e a todas as pessoas que me dão alguma coisa. Nunca precisei roubar na rua. Tomo banho na rodoviária nos dias que tenho dinheiro pra pagar. Comida eu consigo sempre em dois restaurantes, e todos os dias alguém passa por aqui e me deixa bolacha, leite, até chocolate já ganhei. São pessoas especiais e com certeza Deus olha pra eles com ternura e retribui tudo o que doam.

Família. Casa. Passado. Não gosto de falar muito disso. Mas o dia em que saí de casa, esse provavelmente, quer dizer, com certeza, nunca esquecerei. Era um dia como qualquer outro dos últimos dois anos. E já faz tanto tempo que nem me recordo direito. Uns dez, doze ou quinze anos. Algo me dizia que naquele dia minha vida iria mudar. Acordei, tomei meu banho. Pra curar, ou amenizar digamos assim a ressaca do dia anterior, e de tantos outros. Fui ao meu escritório, trabalhei por algumas horas. Depois saí e fui ao bar de todos os dias; lá bebi como sempre nos últimos dois anos. Todos me conheciam e já sabiam o porquê de beber todo santo dia. Quando já não me agüentava mais fui pra casa. Até fui, parei na frente e resolvi não entrar. Dei meia volta e passei minha primeira noite na rua. Por que comecei a beber? Não sei ao certo... Motivo? Minha mulher me abandonou e levou meus filhos...

Talvez fosse por isso. É foi. Eu tinha casa, bem ajeitadinha até. Era bem localizada. Foi o que meu trabalho conseguiu pagar. O tempo foi passando e eu cada vez mais preferia ficar bebendo. Abandonei meu trabalho. Vendi minha casa e metade do dinheiro dei pra “vaca” da minha mulher, desculpa a expressão. A outra gastei nem sei em quê. Eu ajudei a construir essa cidade, eu trabalhava na prefeitura. Sou engenheiro formado. Não lembro se tenho cinqüenta ou cinqüenta e um anos, não sei e também não quero rever meus filhos. Pra que? Sei que estão bem e isso já basta. E também já faz uns doze anos.

Nunca me esqueço da primeira vez em que passei a noite acordado depois que vim pra rua. Não consigo dormir muitas noites, sabe!? São poucos os momentos em que consigo dormir à noite. É por medo, mas não de medo de violência. Medo dos fantasmas do meu passado, que de feliz teve pouco. Sou mais feliz aqui.


Lembro-me da infância. Manjericão me faz lembrar o gosto; o cheiro traz lembranças da minha mãe, que costumava fazer um bom macarrão com molho de tomate, manjericão e frango nos domingos. Reunia a família e todos almoçavam em harmonia. Comecei a trabalhar cedo, meu pai era pescador, quase nunca estava presente. Mas uma coisa ele me ensinou e desde então por anos levo comigo esses simples ensinamentos de lutar pelos meus sonhos. Um cara muito mais esperto que todo mundo aqui disse uma vez: “Pouco se aprende com a vitória, mas muito com a derrota”.

Tudo o que eu acabei de dizer, pode ser verdade ou não? Aliás, nem sei se tive mesmo esta conversa...? Pode ser invenção minha; talvez uma fantasia que tive? Tanto pode ser um simples devaneio, resultado da garrafa de cachaça comprada por um real e cinquenta no boteco perto do terminal que acabei de beber e esta aí jogada, vazia ou a mais simples verdade. Acreditem se quiser essa é minha vida, minha história inefável, meu passado, meu cotidiano, minha cruz, minha realidade. Meu nome é Nilson Rosa.